Playlist da semana: dissolvendo o ego com responsabilidade

HAVE A HOLY TRIP

Toda semana o Fluxo vai compartilhar uma playlist testadas e aprovadas, feita com muito esmero para situações bastante específicas.

Para a estréia, aqui uma lista estabelecida em 2008, quando o iPod era de discar, e muito bem sucedida para incursões psicodélicas introspectivas. 

Recomendamos foco, headphones e um pacote de kleenex.

FLUXO recomenda: Vazante, de Daniela Thomas

Quero muito recomendar o filme Vazante, da Daniela Thomas. E vale correr para assistir no cinema. Duvido que fique em cartaz por muito mais tempo. Já que em uma quinta à noite, na única sala de exibição do filme na cidade de São Paulo, estávamos Susana e eu. Mais ninguém.

Daniela foi capaz de tocar, com firmeza e sensibilidade, em traumas sempre tão reprimidos no Brasil - e que hoje estão à flor da pele: o papel do estupro à mulher e à natureza em nossa formação. A escravidão e o ar insuportável que a transformou, até hoje, em normaliade histórica. E uma pervasiva depressão que, embora jamais iguale, abraça senhores, escravos e sinhás. Uma depressão cármica, ruído branco em nossa história. Em nosso presente. 

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A própria natureza, única trilha do filme, é também palco e personagem. Filmada à perfeição. Era 1821. Mas há, na planta baixa, a mesma matriz econômica que hoje, melhor provida de finanças e mesóclises, segue escancarada no regime Temer. O que faz de Vazante um filme especialmente relevante, importante de ser visto e discutido.

Acompanhei por cima a polêmica criada em torno da obra - a esse ponto inescapável, me parece. Li alguns dos textos produzidos. Não me sinto equipado ou convicto o suficiente para discutir boa parte dos méritos e deméritos levantados. Mas digo que lamento a assertividade da condenação que o filme sofreu antes mesmo da estréia. Temo que tenha afastado algum público. Tanto que nos dias que se seguiram à quase deserta sessão, as pessoas mais dedicadas a debater o filme comigo e discordar da importância dele foram as que não viram a película. Uma pena. 

Sobre a questão da falta de subjetividade, da brutalização na representação dos escravos, me pareceu parte fundamental, justamente, da construção da dimensão humana dos personagens. São pouquíssimos diálogos, um tempo lento que se arrasta para consomir a autonomia, a individualidade, os desejos, as relações e a felicidade de todos. O filme trata, entre tantas outras coisas, também das próprias subjetividades esmagadas pela roda do engenho.

Saímos da sala, a sós, em silêncio. E pensando que, apesar de ter a sala toda para nós, o melhor seria vê-la escoar lotada ao final do filme.