"AQUI É SÃO PAULO" - não é o Brasil?

Previsível como a gravidade... você cobra, critica ou endurece as palavras contra o governo federal, conta 50 segundos e chega a post-patrulha. "Você está entrando para o PIG?"

Eis meu post matutino:

"O Alckmin já deu a versão dele: a polícia tá certa.
Rafael Marques e Fábio Hideki seguem presos.
E aí? 
A Dilma, o Cardozo, o Padilha que seja já se pronunciaram sobre o totalitarismo policial de São Paulo?
Conveniência da Copa? Cálculo eleitoral? Fingem que não é com eles? Ou todas as anteriores?

O que está acontecendo em São Paulo não tem nada de local. É um estupro aos direitos, a uma geração inteira, ao mínimo de democracia que muitas das pessoas que estão hoje no poder se gabam de ter lutado para conquistar.

Se numa hora como essa a presidência não é capaz de se colocar no caminho da extrema direita, vai me desculpar... não merece nem compreensão, nem votos. 

No aguardo. E cobrando."

Apesar de curto e grosso, espero ter sido claro. 

Costumo ser prolixo, mas prezo a concisão. Poupa tempo, meu e dos leitores. E pode ser produtivo começar em termos simples, curtos e diretos a discutir questões complexas, longas e cheias de meandros.

Mas há um efeito colateral e mais do que previsto em tais evacuações de regas no Facebook. O pensamento binário que chega na post-patrulha. Então... elaboremos um pouco mais. Bem pouco que eu tenho mais o que fazer.

Fico profundamente decepcionado, revoltado mesmo, com o silêncio do governo federal em relação ao que está acontecendo em SP. Nunca disse, sequer sugeri, que a "culpa" (essa palavra...) é da Dilma. Ou de Cardozo. Nunca eximi ou poupei qualquer adjetivo ao governador Alckmin. Basta descer meio palmo na minha timeline. 

Meu ponto era um só: nesse caso específico, e nada desprezível, Alckmin deixou claro o que pensa e o que faz a respeito. A presidenta não.

E lá vem a turma dizer que "não defendi o Dirceu no mensalão", que "isso ajuda o PSDB", que "agora estou culpando a Dilma por algo que é da alçada do PSDB", que "não cobro a Marina...", que "se a Dilma falar mal da PM o Aécio ganha".... pois é. 

Por partes:

- Antes de qualquer coisa, não cobrei a "Dilma". Mas a Presidência da República. Mais um caso de explícita violência democrática, de crimes no fundo, cometidos por um estado da federação deve, sim, ser pauta da chefe de Estado. Alckmin mandou o Choque pra cima da Constituição. É papel do planalto defendê-la.

- Lamento se diplomaticamente não convém. Mas é o dever, na verdade, de quem veste aquele faixa verde e amarela. Assim como seu Ministro da Justiça que, desde junho passado, vem se alternando entre o silêncio e a conivência com a escalada de repressão aos protestos. Isso transcende e se impõe sobre a pauta eleitoral e o próprio PT. 

- Mas tem a ver com eleições? Também. Claro. E o governador sabe muito bem disso. Defende sua cavalaria, seus 800 robocops sabendo que isso lhe rende dividendos nas urnas. E arrota no slogan da capanha: "AQUI É SÃO PAULO". Seus 44% estão aí para provar. Em outras palavras, Alckmin começou o debate ao massacrar um em praça pública. Dele não tenho nada a exigir a não ser seu mandato. Por isso pergunto também a Padilha o que pensa disso. Não só a ele, mas a todo mundo que espera ter algum papel no jogo político nacional.

- Enfrentar esse debate de frente, dar nomes aos bois, é não apenas estabelecer claras diferenças políticas para as eleições. Mas não se acorvardar diante da truculência física, jurídica, verbal de Alckmin e boa parte da tucanada. É recuperar um pouco de credibilidade, neutralizar um pouco do constrangimento, para não dizer desânimo, de um eleitorado humanista indisposto votar a no PT. Padilha 3%, só lembrando.

- Estou fazendo o jogo da direita? Entrei para o PIG? Um peso duas medidas? Turminha... essa chantagem emocional não cola em mim. Esse sequestro do debate, e a convicção acrítica de que o PT anda no limite das possibilidades políticas são posições tão cínicas quanto burras.

- Posições ainda mais cínicas e burras quando olhamos o programa de governo desbastado de Dilma. Que, se for mantido, retirou das prioridades o financiamento público de campanha, a democratização dos meios de comunicação, a reforma das polícias no país. Debates que, em 12 anos, o PT não teve a disposição de encarar frente à real direita do país. E, como se sabe, não enfrentar os pilares que sustentam os conservadores com medo de perder voto é, no fundo, fazer, entrar e entregar o jogo à direita.

Não tenho absolutamente nada contra quem defende o governo federal nesse caso. Ou relativiza com argumentos e pensamentos honestos a dureza da minha cobrança. Mas não me venham com dedos em riste, como se fosse eu o autoritário.

Estava na Roosevelt como estive em praças e ruas demais diante do Choque para levar com leveza o ocorrido. Voltei para casa e ainda me sinto violentado como cidadão (com sorte de estar íntegro fisicamente). E absolutamente desamparado politicamente - ao menos entre os eleitos - para não me indignar ao escutar o silêncio ensurdecedor do planalto no meio das surdas buzinas da Copa.

Se Alckmin pede votos, prende e arrebenta afirmando que "AQUI É SÃO PAULO", eu fico com a dúvida: "não é o Brasil?".

Tá claro agora?