HADDAD, O OUVIDOR E O ANO DO CAVALO

FERNANDO HADDAD CONVIDOU ARTISTAS QUE OCUPARAM PRÉDIO ABANDONADO PARA DIVIDIR UMA IDEIA: TRANSFORMAR COCHEIRAS DO JÓQUEI EM UM CENTRO DE ARTES. FLUXO ACOMPANHOU.

Fernando Haddad, Andy Marshall, Talita Bewlay e um dos peculiares residentes da ocupação Ouvidor 63.

Fernando Haddad, Andy Marshall, Talita Bewlay e um dos peculiares residentes da ocupação Ouvidor 63.

Durante a semana passada, Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, leu uma matéria na internet. O texto falava sobre o Ouvidor 63, um edifício ocupado desde o dia 1 de maio no endereço homônimo. 13 andares de propriedade da CDHU, do Governo do Estado, abandonados há mais de 10 anos desde que outra ocupação fora desalojada. Mas, dessa vez, não foi um movimento de luta por moradia que quebrou o cadeado e tomou o imóvel como residência. Mas algumas poucas dezenas de artistas a fim de construir um lar e um centro de experimentações por ali. 

"Quando li a notícia", disse o prefeito abrindo sua fala, "fiquei com vontade de conhecer. Primeiro porque são meus vizinhos aqui." De fato, a Ouvidor 63 fica a poucas quadras do gabinete do prefeito, próxima ao Viaduto do Chá. 

Haddad segue: "Depois, porque me interessei pelo que vocês fazem. Sempre achei que precisamos de vanguardas artísticas para inspirar, dar um norte ao pensamento dos que precisam de utopias políticas".

Haddad perguntou a Juca Ferreira, seu Secretário de Cultura, se era possível visitar a ocupação. Queria não apenas conhecê-los, mas dividir com eles uma ideia que teve poucos dias antes. A visita foi marcada para o fim da tarde de sexta-feira passada, dia 1 de agosto. Mas acabou o encontro acontecendo no prédio da prefeitura. A razão é que os próprios artistas da Ouvidor, um tanto preocupados com as condições da ocupação, preferiram ter com o prefeito em um ambiente mais, digamos, salubre.

 

Artistas da Ouvidor 63 e, ao centro, Gabriel Portela, Juca Ferreira, Fernando Haddad e um dos responsáveis pela medição entre a ocupação e a secretaria, Baixo Ribeiro 

Artistas da Ouvidor 63 e, ao centro, Gabriel Portela, Juca Ferreira, Fernando Haddad e um dos responsáveis pela medição entre a ocupação e a secretaria, Baixo Ribeiro 

Participaram mais de 20 habitantes e representantes de coletivos que apóiam ou ajudam a manter a Ouvidor funcionando. Nas cadeiras do poder público, além do prefeito, Juca Ferreira e um de seus assessores na Secretaria, Gabriel Portela.

O prefeito abriu a conversa com uma pergunta. Queria saber, afinal, quem eram, como chegaram no prédio e o que pretendem por lá. Alguns pediram a palavra. Um dos principais articuladores do grupo, o gaúcho Andy Marshall, contou que muitos deles vieram de Porto Alegre especialmente para a ação. Que se conectavam com uma clara retomada do centro de São Paulo como pólo de atração de artistas e coletivos culturais. E que ocupar um imóvel ocioso era, para eles, tanto uma forma de garantir um ambiente para criação quanto conectá-la com um sentido público, político.

Quando a palavra retornou ao prefeito, ele disse porque, além da curiosidade, os chamou ali. 

Por 10 anos, desde que Haddad era sub-secretário de finanças da cidade, na gestão de Marta Suplicy, um processo corria entre a prefeitura e o Jóquei Clube de São Paulo. Uma dívida enorme de IPTU referente à Chácara do Jóquei e a vontade da prefeitura de desapropriá-la e transformá-la em parque. Valor da dívida quase igual ao da propriedade, ano vai, ano vem... São Paulo é agora dona do terreno a custo próximo de zero.
Não apenas do terreno, mas de todas as construções dentro dos muros que logo cairão. Incluindo 400 cocheiras tombadas pelo Patrimônio Histórico. E foram essas cocheiras que deram uma ideia ao prefeito:

"Vamos transformar a Chácara em um parque. Isso está certo. Mas eu queria usar aquelas cocheiras em algo para as artes", explicou Haddad. 

As cocheiras não foram apenas casas para cavalos. Mas para seus tratadores. Acima delas há quartos, pequenas residências. Haddad imaginou que poderiam se tornar estúdios, habitação temporária, laboratórios de criação para artistas e coletivos de dentro ou fora de São Paulo. 

Mas, pessoalmente, não sabe a melhor forma de levar o projeto a cabo. Depois de Juca Ferreira, aquele grupo de artistas eram os primeiros a escutar a ideia do prefeito. E os primeiros convidados a dar palpites sobre o que deveria ser feito. "E como vocês são bons em ocupar. E em fazer arte... queria ouvir a opinião de vocês", disse antes de devolver a palavra aos presentes.

 "Sempre achei que precisamos de vanguardas artísticas para inspirar, dar um norte ao pensamento dos que precisam de utopias políticas"


A reunião transcorreu entre muitas falas - e um mal entendido que demorou a ser desfeito, e que, por quase uma hora, causou certo desconforto. A falta de entusiasmo de alguns dos artistas em comentar e contribuir com a proposta do prefeito era por conta de um problema real que eles estão vivendo na Ouvidor 63. E que Haddad simplesmente desconhecia. Na mesma semana em que ele descobriu que era vizinho de uma ocupação artística, a mesmo ocupação recebeu o pedido de reintegração de posse feito pelo governo do estado.

Por quase uma hora alguns estavam suspeitando que Haddad estava meio que oferecendo cocheiras como abrigo após do despejo. E ele achando que estava apenas abrindo um canal de diálogo com artistas "estabilizados" em um prédio próximo ao seu.

Juca Ferreira: "Não queremos tirar ninguém do centro. Mas São Paulo é muito mais do que só o centro"

Juca Ferreira: "Não queremos tirar ninguém do centro. Mas São Paulo é muito mais do que só o centro"

Resultado: Haddad explicou que o pedido é do governo do estado e corre na justiça. Não pode fazer muito. Mas se ofereceu para fazer consultas e ver se é possível ganhar tempo para a turma se planejar e enfrentar a ação de despejo. 
Os artistas, enfim, se prontificaram a ajudar a prefeitura em pensar o que pode ser feito com as 400 cocheiras.

E um consenso entre poder e coletivos: o desafio do espaço não será tanto artístico quanto de gestão. Como transformar cocheiras tombadas em celeiros de arte livres e abertos. Sem o dedo pesado da curadoria estatal, e sem a ineficácia típica de horizontalidades principistas e sem poder de gerenciamento real.

Ao Fluxo, o Secretário Juca Ferreira disse acreditar que é possível. E citou experiências de gestão compartilhada entre o público e poder público que viu de perto na Espanha e na Alemanha, depois de deixar o Ministério da Cultura na saída de Lula da presidência, e antes de assumir a pasta na prefeitura de São Paulo em 2012.  Disse acreditar no potencial do projeto de transformar um parque no distrito do Butantã em um polo cultural internacional.

Novos encontros serão marcados. Não apenas com a turma da Ouvidor 63. Juca Ferreira e sua equipe vão convidar muitos outros artistas e coletivos a pensar no que fazer com a construção. O fato é que em dois meses, ou pouco mais, esse projeto deverá ser encaminhado. E na opinião desse jornalista que vos posta, São Paulo terá a chance não apenas de ganhar um grande e inédito centro de produção e residência artística, mas a de criar em torno de um projeto uma inédita coalizão criativa e política entre coletivos e artistas de diferentes linguagens e áreas de cidade. 

Tudo ainda em 2014... o Ano do Cavalo.

texto e fotos: Bruno Torturra


MAIS NO FLUXO:
Assista aqui como foi nossa transmissão, com a condução de Claire Rigby, sobre as ocupações do centro de São Paulo. No sofá, Andy Marshall e Talita Bewlay, figuras centrais na Ouvidor 63. 
Em uma hora de conversa você pode ouvir dos próprios ocupantes como e porque eles decidiram se mudar para o edifício de 13 andares abandonado.