No última dia da MTV, meu último trabalho pela Mídia Ninja

Há exatos 25 anos, dia 20/10/90, a MTV fez sua primeira transmissão. Pouco depois da própria democracia no Brasil entrar no ar. Em um país ainda insular em relação ao mundo, afogado em uma mídia sisuda e asséptica, foi uma bomba de baixa audiência e alto impacto.

Me lembro que tentei, mas não consegui assistir de início. Nem todo bombril do mundo fez com que minha TV sintonizasse o 32 UHF em São Paulo.
Mas dois anos depois ganhei um aparelho novo. Meu primeiro com controle remoto e uma entrada coaxial. Foi quando a MTV tornou-se o canal default no meu quarto de pré-adolescente. 

É difícil superestimar a importância e a influência que essa TV teve para mim. Para minha geração. Para a criação não só de uma nova cultura jovem nacional. Mas principalmente uma nova cultura midiática. Em uma sociedade ainda sem internet, ensaiando uma globalização cultural perigosamente homogênea, a MTV se tornou um agente provocador decisivo na cabeça de muito moleque como eu. Porque estendeu a ruptura, o experimentalismo, a irresponsabilidade, a rebeldia já mainstream no pop à uma das maiores fronteiras da caretice: o broadcast. 

Não vou me estender muito aqui. Há gente suficiente - e muito mais capaz do que eu - para refletir sobre o papel que a emissora teve na reconfiguração da TV, do audiovisual, da música e do jovem brasileiro. 

Mas quero falar um pouco sobre o vídeo que postei acima. Um dos episódios relativamente discretos na minha carreira de jornalista. Mas dos mais significativos para mim.

Era outubro de 2013. Estava vivendo a louca repercussão da Mídia Ninja que eu havia fundado meses antes. No meio de um bombardeio de ataques e rasgações de seda, de torrentes de demandas, no centro do debate sobre os protestos, mídia e sobre um papel público que me foi atribuído por todo tipo de expectativa alheia. Raramente correspondidas pelas minhas próprias. Quando escuto que a MTV Brasil, aquela feita no prédio da Alfonso Bovero, o 32 UHF, iria fechar.

E, pela ideia e confiança da minha amada Susana Jeha, fui convidado para fazer uma das minhas, à época celébres, transmissões sem cortes de celular. Justamente no último dia daquela MTV.

Demorei para entender que, nos 49' do segundo tempo, eu faria minha estréia e despedida como VJ. E o que aquilo tinha a ver com a exata fronteira de mídia, de transmissão, de broadcast que eu havia cruzado com meu jornalismo de baixa resolução e alta fidelidade. 

Bolamos um um passeio, sem cortes ou edição, pelo icônico prédio Victor Civita, onde outrora foi a Tupi, onde a MTV funcionou por 23 anos, discutindo o significado daquele fechamento. As mudanças tectônicas que a mídia passa, a rede como o novo campo da cultura e do mercado jovem. Sobre a história e as conquistas culturais da MTV. Sobre linguagem, modelo de negócio e de mentalidade televisiva. 
 

Valtinho, Zico Góes, Ronaldo Lemos, eu, Cláudio Prado, Marina Person, André Vaisman e Susana Jeha no topo do prédio, aos pés da antena da MTV.

Valtinho, Zico Góes, Ronaldo Lemos, eu, Cláudio Prado, Marina Person, André Vaisman e Susana Jeha no topo do prédio, aos pés da antena da MTV.

Um passei do térreo à antena. Passando por todos os andares, já quase vazios. A produção, as ilhas, a redação, a sala dos diretores, os estúdios, a incrível videoteca e a sala de exibição. Conversando sem pauta e sem roteiro com Cláudio Prado, Ronaldo Lemos, Zico Góes, Marina Person, André Vaisman e Valter Pascotto. E com a direção da Susana. Que estava lá quando a MTV apertou o botão de on. E, antes do off, achou um jeito de manter o 32 UHF olhando para frente. 

Foi também minha última transmissão pela Mídia Ninja. Sem brigas, rompimentos ou segredos. Por motivos muito pessoais, jornalísticos e existenciais me afastei para criar o Fluxo. E, em um predinho dos anos 40 no centro de São Paulo, gago e sem cortes, seguir transmitindo.

Obrigado demais à MTV por tudo.