Sociedade da informação (fim)

Ana Paula Maia, Carlos Brito e Mello, Noemi Jaffe; Alexandre Soares Silva, Xico Sá, Tatiana Salem Levy, Jaime Prado Gouvêa

Chegamos ao final da saga em busca das opiniões sobre política dos escritores brasileiros contemporâneos (aqui está a primeira parteaqui está a segunda aqui a terceira e aqui a quarta). Pedimos que mais sete reconhecidos escribas (aqui estão suas fichas) nos abrissem seu voto e falassem sobre seus ideais e ideias. 

Sejam bem-vindos ao nosso quinto Fluxo de Consciência os leitores que apreciem histórias e opiniões com contradições e nuances, viajem para além do pensamento binário e não curtam fiscalizar nem cu nem credo alheios. Assaz curioso, aliás, observar como em uma eleição liderada por duas mulheres, em um país machista, o cu, seus usos e abusos, tenha reinado como nunca no centro das atenções. Aqui o cu do mundo reluz, diria Caê.

Esperamos que estes 35 escritores de todo o Brasil varonil e feminil tenham colocado muitas minhocas nas cabeças de todos. Todos foram entrevistados por escrito — não entrevistas faladas ou por telefone. Ou seja: para além do embate entre conceitos políticos, temos aí também um encontro (ou um confronto) entre algumas das escritas mais espertas do país. E forma, mais que conteúdo, é política pura, crianças.

FLUXO faz votos de votos inteligentes neste domingo.

1. Em 2013 o Brasil saiu do armário.

Pelo menos politicamente. Talvez motivados pelas jornadas de junho, mesmo aqueles mais arredios à ação ou reflexão política soltaram seus demônios. Incluindo os escritores.

Há desde os cotidianamente indignados, que xingam muito nas redes sociais (você sabe quem), os que usam o assunto como matéria-prima ficcional (Paulo Scott no romance Habitante Irreal) quanto os que usam palcos da literatura para tocar em feridas abertas (Luiz Ruffato na Feira de Frankfurt) e até os que batem boca direto com os políticos (como no recente telecatch entre JP Cuenca x Eduardo Paes, na GloboNews), e mesmo os que, por conta de um mal-entendido, ocupam a tribuna lascando a plataforma deste ou daquele candidato (Milton Hatoum indignado com o recuo de Marina Silva na questão LGBT).

O belo filme O Primeiro Homem, que (também) trata da maneira como Albert Camus lidava com a política na Argélia e na França — e do quanto sofreu para sustentar suas posições —, faz pensar em quão distantes nós escritores brasileiros estamos do modelo de atuação do autor d'O Estrangeiro. Em 2014, o intelectual talvez tenha perdido sua relevância no palco político.

Sem mais delongas: qual é a sua?

 Noemi assusta-se com a violência dos militantes nas redes

Noemi assusta-se com a violência dos militantes nas redes

NOEMI JAFFE      A boa literatura é uma forma das mais eficazes de reconhecimento das diferenças. A concretude do mundo ficcional faz com que as pessoas tenham um olhar mais tolerante e compreensivo para com os outros. Essa é minha principal plataforma política, no Facebook, em meu blog e em meus livros. Acredito na poesia e na arte como forma de transformar a leitura das pessoas, mesmo que em pequena escala. Também atuo, como professora, muito no sentido de "descoxinhizar" os alunos e ajudá-los a pensar a literatura como linguagem de transformação. Afora isso me manifesto também de forma mais explícita sobre alguns temas que me soam urgentes ou aos quais não consigo resistir.

XICO SÁ     O amor de perdição, como o carinha lá do romance português.

CARLOS BRITO E MELLO (TROVÃO)      Penso que é comigo, contigo, conosco: o comprometimento é necessário, responsabilizar-se por ele também é. A política não precisa ser – certamente, não deveria ser — falseamento ou corrupção da experiência. Pode se apresentar como força de produção de valor e de afirmação da vida, aberta a determinantes identitários, afetivos, artísticos, entre outros, que compõem nossa dinâmica social.

TATIANA SALEM LEVY     Pode rir: sou utópica. Acho que o mundo pode ficar sempre melhor. Se não acreditar nisso, vou acreditar no quê? Por mais que essa barbárie capitalista não seja o melhor dos mundos, hoje nossa sociedade é mais democrática. Se você parar para pensar, até pouco tempo atrás éramos uma sociedade escravocrata; as mulheres não trabalhavam nem votavam; depois fomos uma ditadura militar...

ALEXANDRE SOARES SILVA (LORD ASS)     Não quero ter relevância nenhuma na política. Certamente não com os romances. Com artigos e textos de blog, só quero ser um pequeno e discreto exemplo negativo de pessoa absolutamente não-de-esquerda. Essa é toda a minha ambição política, se tenho alguma. Quanto às manifestações de junho de 2013, achei que todo mundo tinha ficado maluco. É sempre horripilante quando as pessoas começam a achar qualquer movimento político “bonito”. Como disse Nicolás Gómez Dávila, “Siempre acabamos avergonzados de haber compartido un entusiasmo colectivo”.

JAIME PRADO GOUVÊA      A gente fala para ninguém, pois o nível cultural dos nossos políticos é muito ralo. Não gostam de gente que pensa, pois esse tipo costuma ser perigoso, e o grosso dos eleitores  — e dos leitores — é grosso mesmo. O brasileiro só ouve pregação de pastor ou de político populista, só se interessa pela arte de entretenimento, em curtir música fácil pulando como pipoca. Não tenho escrito há quase duas décadas por causa do desânimo em pensar em quem vai ler minha literatura.

ANA PAULA MAIA      Respeito quem use a literatura para se posicionar politicamente ou até mesmo palcos de eventos literários para isso. É uma escolha. Em geral, quando vejo um escritor se posicionar politicamente, a primeira impressão que tenho é que ele quer, de fato, se promover. Dificilmente me convencem. Existem os autênticos, claro. Minha escolha é tratar de questões cotidianas do homem comum e assim causar alguma reflexão no leitor.  

2. A arena pública deveria ser mais ocupada por escritores?

 Xico prega o anarquismo baudelairiano

Xico prega o anarquismo baudelairiano

XICO      Óbvio que sim, Reinaldo Moraes para presidente. Pau na mesa como a Dilma, criacionista, apesar de pornopopéias, como a Marina, e tão lindamente escroto como o Pastor Everaldo. Meu voto é do Reinaldão e não abro. 

TROVÃO     Certamente, é um trabalho que exige manifestar discordâncias, promover atrito e encontrar as frestas por onde podemos questionar chancelas oficiais, catequeses e pedagogias, driblando controles e denunciando dissimulações. Escritores, garis, aposentados, auxiliares de enfermagem, professores, jogadores de futebol, vendedores ambulantes, engenheiros, malabaristas — e até o próprio político profissional. Este costuma ser exatamente aquele que, valendo-se de uma inconsistente e encenada publicidade, omite-se, disfarça, recua, agindo apenas na privacidade dos gabinetes e eximindo-se de prestar contas e de responder pelas suas decisões e equívocos. Devemos ponderar sobre o que significa ocupar a arena pública: reunião de pessoas em manifestações? Uso estratégico das redes digitais? Discursos? Ações específicas? Sem pressão popular e enfrentamento não se ocupa nada.

NOEMI     Quem se sente bem fazendo isso deve fazê-lo. E os que preferem se recolher, também exercem sua função. A sociedade precisa de pessoas que se isolam e que produzem coisas que alimentam o imaginário. Uns são centroavantes, outros ficam só no suporte.

LORD ASS      Sempre me pareceu, olhando meio de longe a política estudantil quando estava na faculdade, que a política era a ocupação do estudante que não tinha um interesse real na sua área de especialização: o estudante de medicina que é medíocre demais para se interessar por medicina, o estudante de engenharia mais interessado em eleições acadêmicas do que na estrutura das pontes, e assim por diante. Uma simplificação — mas por Deus, acredito em simplificações. E a mesma coisa se aplica a escritores. Um bom escritor está suficientemente ocupado com a estrutura do que está escrevendo. Não é Borges, não é Henry James, não é Nabokov, que escreve artigos sobre como ficou decepcionado com candidatos à presidência (uma ingenuidade, aliás: é como ficar decepcionado com um matador de focas): são sempre escritores de segunda linha. De modo que, para responder a sua pergunta: por escritores medíocres, desde que politicamente sensatos e moralmente decentes, por que não?

ANA PAULA      A arena pública deveria ser ocupada por pessoas mais honestas e mais capacitadas. Se forem escritores, é um detalhe.

GOUVÊA      Num país decente, sim. Num país que se dedicasse à educação de qualidade, os (bons) escritores seriam lidos e ouvidos.

TATIANA      O escritor é um ser livre como outro qualquer. Só deve ocupar a arena quem sente necessidade disso. A política é feita de diversas formas, e nem sempre a arena é a melhor delas. Escrever um livro pode ser um gesto mais político do que subir no palanque.

3. Tem um credo político? É de esquerda, direita, tico-tico no fubá ou essas categorias são irrelevantes e datadas?

 Ana Paula está a um passo do niilismo

Ana Paula está a um passo do niilismo

ANA PAULA      Meu credo político é: cuidado, pode piorar. Sendo assim, uma situação pode não estar ótima, somente boa. Mas se mexer, pode ficar bem ruim.

GOUVÊA      Eu só creio na Yoko, como dizia o Lennon.

NOEMI      Me considero de esquerda. Mas acho que a assim chamada esquerda brasileira não é de esquerda.

LORD ASS       Sou de direita, ou talvez mais precisamente sou anti-esquerda: o que quer que a esquerda queira, sou contra. Me aproximo dos libertários em favorecer a liberdade alheia tanto quanto possível, mas me diferencio deles em assuntos como imigração (sou favorável a restrições) e aborto. E se a monarquia constitucional voltasse, eu seria o último a reclamar.

TATIANA      A esquerda no Brasil está longe de ser o que algum dia sonhamos, mas ainda me parece melhor do que a direita. Há os que dizem que não há diferença entre uma e outra, mas acho que os valores são bem diferentes e, no fundo, é isso que importa. Querer uma sociedade mais igualitária nos direitos, no acesso à educação e à saúde, menos movida pelo capital... Não sou comunista, isso, não! Sou a favor da liberdade individual, mais do que tudo. Só que a direita confunde liberdade individual com capitalismo, o que é uma grande treta. A verdadeira liberdade surge quanto todos têm acesso à educação de qualidade. Além disso, as bandeiras da criminalização da homofobia, descriminalização das drogas, do aborto, direitos da mulher e dos negros aparecem mais do lado esquerdo. Só voto na direita em casos extremos. Por exemplo, se estivesse no Rio num segundo turno entre Pezão e Garotinho, votaria no Pezão, porque tudo o que NÃO quero para a minha cidade é o Garotinho. 

TROVÃO      De esquerda, e sem credos: acho que avançamos melhor, e mais criticamente, sem eles. 

XICO     Sempre estive ali no mundo esquerdopata, com flertes reais com o anarco-sindicalismo e com o anarquismo baudelairiano. Direita lá em casa só o lado do meu pau na calça jeans.

4. Votou em quem nas últimas eleições para presidente? Fez campanha abertamente? É favorável ou contra isso?

 Lord ASS: monarquista, pessimista, antiesquerda

Lord ASS: monarquista, pessimista, antiesquerda

LORD ASS       Nem lembro mais. Acho preocupante quando alguém vota empolgado, vota sem nojo. É um sinal de ingenuidade catastrófica. Nenhum tirano jamais chegou ao poder com o voto enojado da maioria; todos foram empolgadamente colocados lá. Se você gosta de um candidato, esbofeteie-se. Se você gosta de um presidente, tenha pelo menos a decência de conter o seu impulso de defendê-lo.

TATIANA      Não votei em ninguém, porque não estava no Brasil, o que foi um grande alívio. Eu teria votado na Dilma, mas sabendo que seria uma decepção. Desde a primeira vez que o Lula ganhou, nunca mais votei num candidato com paixão. Não fiz campanha abertamente, mas não sou contra de jeito nenhum.

TROVÃO     Votei na Dilma e fiz campanha. A decisão sobre fazer ou não fazer campanha é de cada um. 

ANA PAULA      Votei na Dilma. Nunca fiz campanha e não condeno quem faça.

NOEMI      Votei na Dilma. Não fiz campanha abertamente. Sou favorável a quem faz campanha, mas detesto apaixonadamente o fanatismo, que tem grassado largamente nas redes sociais. Acho-o quase tão nocivo quanto a direita. Detesto quem quer provar coisas, ganhar discussões e quem prefere a briga a ouvir o outro. Simplesmente odeio isso.

XICO      Sou fã do sapo barbudo, como dizia o Brizola sobre o Lula. Queria sempre um segundo turno entre Lula e Brizola, porque ai poderia ficar dormindo em algum cabaré próximo e estaria lindo o resultado. Contra a imprensa burguesa, vou votar na Dilma, não com muito entusiasmo, mas já é alguma coisa.

GOUVÊA      Sou a favor do não-voto, do direito de não avalizar nenhum candidato, de dizer quem não quero que me represente.

5. Defende — ou milita por — alguma causa específica?

 Tatiana: no exílio, otimista

Tatiana: no exílio, otimista

TATIANA      Defendo a legalização das drogas e do aborto e os direitos das minorias. O Brasil é um país extremamente racista, machista e homofóbico, e adoraria ver mudanças nesse sentido. Nunca fui feminista, cresci numa classe média intelectual achando que as mulheres já tinham conquistado seus direitos, e agora só não me defino como tal porque me faz pensar num estereótipo de mulher que não me agrada. Mas cada vez mais quero falar de como as mulheres ainda não conquistaram completamente seus direitos e, sobretudo, falar contra a violência. O romance que vou publicar em breve aborda essa questão — violência doméstica, estupro. Toda mulher brasileira sofre algum tipo de violência, por mais sutil que possa parecer.

NOEMI      Fui ao Rio Xingu protestar contra a Belo Monte. Mas não sou militante ambiental nem de outras causas.

TROVÃO     Acompanho de perto o movimento LGBT. De modo geral, é importante salientar que o que está sempre em causa no sujeito é o desejo, e a responsabilidade que cada um tem sobre ele. Além disso, numa dimensão mais relacional e comunitária, deveríamos nos perguntar: como se pode conviver melhor, como fazer da vida em comum uma experiência mais rica, mais interessante, menos violenta, menos canalha — na cidade, na família, nos vínculos de amizade e de trabalho?

XICO      Sou a favor das vadias e dessa luta bagaceira toda donde estão os sujos, feios e malvados. É o meu lado. Nem escolhi, já nasci nele.

LORD ASS      Preguiçoso demais pra isso. Mas, como eu disse, não seria contra a volta da monarquia. E queria ter mais paciência de combater a Reforma Ortográfica.

ANA PAULA      Não sou militante de causa alguma. De algumas simpatizo de outras nem tanto.

GOUVÊA      Não. A causa de um escritor é sua própria obra. Se for boa o bastante para mexer com as pessoas, terá colaborado politicamente muito mais do que militando em causas.

 Trovão prefere se engajar e já foi militante

Trovão prefere se engajar e já foi militante

6. Tem ou teve militância política em algum partido ou causa? Já trabalhou no governo ou no Estado ou em alguma campanha política? Gostou?

TROVÃO      Fui militante do PT. Em 1996 trabalhei no gabinete de um deputado estadual do PT em MG. Me aproximei da União da Juventude Socialista, mas não aderi. Participei bastante do movimento Fora Collor e fui às manifestações de junho do ano passado.

XICO     Nunca marcha à ré, sempre engato o engajê. Fui militante toda uma vida. Nesse corte anarco-esquerdista fui de diretórios acadêmicos, diretoria da CEU (Casa do Estudante Universitário) da UFPE, equivalente ao Crusp, invasor contumaz de reitorias etc. Tinha uma performance copiada do Neruda: arrastava um bode para as salas de aula e para os recitais. O poeta chileno, havia lido no Confesso que vivi, andava com um touro, algo assim. Sempre estive no perigo da hora.

GOUVÊA      Sou aposentado como funcionário público. Nunca participei de campanha política. Sou inocente!

ANA PAULA      Nunca me envolvi com nenhum partido nem trabalhei para nenhuma campanha.

NOEMI      Não. Em nenhum.

TATIANA      Não.

LORD ASS      Jamais faria isso. E se algum dia fizer isso, por favor me cubram de cuspes.

 Gouvêa não tem nada a ver com isso

Gouvêa não tem nada a ver com isso

7. Política e literatura se misturam?

GOUVÊA      A GRANDE política é essência da literatura, como obra humana de certa grandeza, por utópico que pareça. Mas o escritor que faz política partidária em sua obra acaba fazendo subliteratura.

NOEMI      A linguagem literária é política, se, por política, compreendemos um discurso que se propõe a transformar alguma coisa na pólis. Penso, por exemplo, que A paixão segundo G.H. é um livro profundamente político, embora nele não haja temas públicos.

TROVÃO      Sim, de variadas maneiras (ora primorosas, ora desastrosas).

XICO      Se está vivo e se bulindo é político, no sentido greco-cratense.

TATIANA      Toda escrita é política, mesmo quando não se pretende como tal. Quando estou escrevendo, não penso em mudar o mundo, mas quando decido, por exemplo, falar de um passado ou de um presente do Brasil, não deixo de fazer uma opção política. O próprio uso da língua é político. Conto histórias sem pensar em mudar o mundo, mas de alguma forma a escolha dos personagens, do que ocorre com eles, a escolha por contar aquela e não outra história, é um movimento político. Sem levantar bandeiras, nos meus romances acabei falando da ditadura militar, de homossexualidade, de violência contra a mulher. Nossos valores acabam passando para os livros...

ANA PAULA      Aprendi que o homem é um animal político. Fazer literatura é claro que carrega muito de político em si. Quando escrevo estou tratando de questões políticas, mas não panfletárias.

LORD ASS      Mal, muito mal.

8. O pensamento político do escritor ecoa na formação da opinião da sociedade?

XICO     Só a literatura muda o mundo, o resto é jabaculê. Gosto até de Jesus, por causa do menino Holden Caulfield, de O apanhador no campo de centeio. Em compensação acho os apóstolos uns chatos, uns babacas.

ANA PAULA      Sim, e essa ressonância, imagino eu, ocorre dentro de seus textos e histórias. Não necessariamente de uma maneira direta e óbvia. A literatura tem sua força. 

GOUVÊA     Sinceramente, não acredito.

TATIANA     Acho que bons livros sempre mudam os indivíduos, e são eles que formam a sociedade... É um trabalho de formiguinha, ainda mais no Brasil, em que o público leitor é mínimo; o de literatura ainda menor; e o de literatura brasileira nem se fala...

NOEMI    Pouco. Escritores influentes podem se manifestar publicamente e ajudar a formar opiniões, mas não acredito nisso. Por outro lado, acho que a persistência numa escrita de qualidade e políticas públicas eficientes de incentivo à leitura podem, a médio e longo prazo, transformar a sociedade, sim.

 Discutir política com escritores é uma briga de foice no escuro

Discutir política com escritores é uma briga de foice no escuro

TROVÃO     É possível que um artista, caso tenha mais visibilidade e seja, por isso, mais conhecido publicamente, garanta especial atenção para os seus pontos de vista. Mas não acho que um escritor, pelo objetivo fato de que escreve, tenha mais – ou menos – a dizer sobre política do que qualquer outra pessoa. Quanto à literatura que ele produz, penso que os efeitos ocorrem noutra duração e noutra instância: de qualquer maneira, é importante lembrar que um texto age no mundo (que, por sua vez, age no texto). 

LORD ASS      Infelizmente.

9. Que acha da democracia direta? Ação direta? Desobediência civil?

LORD ASS      Muito a favor da desobediência civil, principalmente no caso da Reforma Ortográfica. Resistam! Mantenham os acentos nas suas idéias

NOEMI      Não acredito em democracia direta; as pessoas precisam de bons representantes, o que não acontece. Gosto da ação direta e mais ainda da desobediência civil, que pratico em alguma medida.

TATIANA      Democracia direta no Brasil, sei não... Somos religiosos e reacionários demais para isso. Um pouco de ação direta e desobediência civil, sempre.

XICO      Só resolveria assim, tomara que role. Se eu tiver velho para quebrar alguma coisa me escalo para narrar a parada, como aquele cara dos dias que abalaram o mundo. Juro que vou caprichar, sou bom em jornalismo literário bolchevique.

GOUVÊA      Acho muito estranho.

ANA PAULA      São importantes, mas com medida e cautela. O problema é quando extrapola e infelizmente quase sempre extrapola

TROVÃO      Precisamos de reforma política, de garantia de direitos e de distribuição de renda

10. Abaixo-assinados recheados de escritores servem para algo?

ANA PAULA      Acho que para nada. Já soube de algum que serviu?

GOUVÊA      Servem para fazer barulho, mas, na prática, acho que não funcionam.

TATIANA      Não servem para nada, mas assino assim mesmo... Sou do tipo "vai que funciona?".

XICO      Só o tipo dos abaixo-assinados que coincidem com a lista dos proibidões do Serasa e do SPC. É revolucionário de alguma forma.

TROVÃO      De escritores, garis, aposentados, auxiliares de enfermagem, vendedores ambulantes, malabaristas... Servem, especialmente se acompanhados de outras ações de maior peso, e se associados a outras reivindicações feitas por mais setores da sociedade. 

NOEMI      Muito pouco. Mais para aparecer.

LORD ASS      Talvez, mas quase sempre é um momento ridículo, um momento de riso durante a leitura de um jornal.

11. Em quem vota (presidente, governador, senador, deputados federal e estadual)?

XICO     Dilma para presidenta; Maringoni pra governador; Erundina fodona pra federal; Suplicy — o maior político do Brasil — para senador. Ainda sem estadual.

NOEMI     Marina

TROVÃO      Voto na Dilma: é preciso reconhecer os ganhos substanciosos relativos à justiça social que ocorreram nos últimos anos, sem que isso venha a desculpar os erros graves e grosseiros cometidos neste mandato que se encerra — e que feriram, violentamente, a própria história do partido. Ainda assim, dentro das alternativas que essa eleição oferece, considero a melhor escolha. 

TATIANA      Estou morando em Portugal, então não vou votar, mas dessa vez eu votaria na Marina, ainda que com um pé atrás. Acho que já é muito tempo de PT, há problemas que eles não conseguem solucionar, e tenho vontade de ver outro partido, outra energia no poder. Nunca votaria numa política neoliberal como a de Aécio Neves. Acredito nas propostas sociais e ambientais da Marina, assim como em sua coragem para fazer mudanças. Acho fundamental ter um presidente para repensar a destruição da Amazônia, a destruição de terras sagradas indígenas para construção de hidrelétricas... Mas tenho sérios problemas com o fato de ela ser evangélica, porque o evangelismo vai contra todos os valores que citei acima. Não tenho nada contra ela ter uma religião privada, mas quando vejo a religião se misturar à política, aos valores que regem a política, fico logo assustada. De resto, anularia para governador no primeiro turno (o Rio, coitado, sofre demais!), e votaria contra o Garotinho no segundo. Senador e deputados federais, não sei. Estou em Portugal há um ano e meio, não conheço todos os candidatos. Estadual, o Freixo, sempre. Taí um cara em quem acredito, que me desperta uma paixão política.

LORD ASS      Aécio enquanto puder, Marina depois — com asco até de conhecer esses nomes. A prioridade é trocar o governante imbecil do momento pelo governante imbecil do amanhã. Governadores, senadores e deputados não me interessam. Ficaria triste comigo mesmo se conhecesse o nome deles.

ANA PAULA      Este ano vou justificar, pois estarei longe da minha seção eleitoral. Mas seria na Dilma novamente, partindo daquele credo: cuidado, pode piorar.

GOUVÊA      Meu voto é tão secreto que nem eu quero saber em quem NÃO vou votar.

Fique ligado no FLUXO para saber do zine que lançaremos reunindo as entrevistas com os 35 escritores.

Bom voto!