A GUERRA DAS BOLHAS

*coluna publicada na Folha de S. Paulo. Última de uma série de quatro para o caderno especial eleições.

 

Bem verdade que a festa da democracia desandou em um barraco federal. E que, dado o tamanho do porre, vai provocar uma histórica ressaca moral e cívica. E lamento informar: qualquer que seja o resultado, o quebra pau não acaba amanhã.

E não me refiro ao realista cenário de que a partir de segunda começa a barganha das alianças, as fileiras cerradas da oposição e a insalubre política do chão que constrange os próprios bótons das campanhas. Falo sobre o fato de que o sufrágio de 2014 já representou um sério naufrágio do diálogo político no país - e a consagração de um fenômeno antigo, mas hoje majoritário: a dissonância cognitiva tomando o lugar da disputa ideológica.

Mais ou menos assim: não é que a turma esteja brigando para ver quem será o DJ da festa de democracia. Mas uma turma tem certeza de estar na festa da uva, outra no baile da saudade e outra refém de uma quadrilha junina. E, por isso, saem atirando cadeiras e garrafas uns sobre os outros.

Me parece que essa exata incompatibilidade de versões, de visões quase alucinatórias sobre a dinâmica institucional do Brasil pautou boa parte dessas eleições. Pois não creio que estejamos vivendo apenas uma exaltada polarização entre projetos. Mas um fenômeno novo e ainda experimental em termos políticos. Um paradoxo entre a hiperconectividade social e a decorrente cristalização de bolhas, de narrativas de divergentes e impermeáveis entre si.

E esse será um dos maiores motores da política nacional a partir de segunda.

A rede social é chave nisso. Ela tirou o monopólio do discurso político da boca de políticos, colunistas e lideranças. E transformou o eleitor, agora um perfil na internet, em um cabo – ou cacete – eleitoral indomável. E isso é muito bom. Mas a súbita ascensão de mais de 80 milhões (só no facebook) de brasileiros à condição de colunistas políticos cria suas distorções. Pois, como todo colunista político, o sujeito político agora está em busca de aprovação, de likes e de um grupo que o valide. Logo, mais interessando em manter do que mudar de posição.

E aqui está meu ponto. À medida que a mídia de massa vai se tornando uma massa de mídias, cada vez mais são algorítimos e nosso desejo de aprovação que vão nos dizendo o que está acontecendo lá fora. E a consequência disso pode ser mais grave do que o mero ruído. Mas o isolamento de versões de país e política que nos afasta ainda mais da construção democrática cotidiana. Que é, basicamente, a disposição em escutar bem mais do que a de falar. A de oferecer mais do que demandamos. E a de questionar mais do que afirmar.

E basta uma olhada para fora da bolha para ver que a eleição ganhou ritmo de timeline. E perdemos a chance de pautá-la pelas reais encruzilhadas do Brasil: crise ambiental, modelo de desenvolvimento, ampliação de direitos, mais participação democrática e uma profunda reforma política. Mas podemos estar perdendo algo mais sério ao nos tornarmos comunicadores políticos entrincheirados: a empatia. A capacidade ou o interesse de olhar o mundo pelos olhos dos outros.

E essa deveria ser o sentido, o princípio e o objetivo de todo política. E de todo voto.

Boa eleição, turma.

Paz.