A POLÍTICA SURDA NÃO MUDA

*coluna publicada na Folha de S. Paulo. Terceira de uma série de quatro para o caderno especial eleições.

Mudança. Tão evocativa quanto previsível em qualquer campanha. Até Dilma, representante de um projeto há 12 anos no poder, a embutiu em seu slogan. “Muda Mais”. Um modo de dizer que sua reeleição é a continuidade, justamente, da mudança. De chapas para o cargo de síndico à Casa Branca, de conservadores a libertários, ela é o PMDB das promessas: de alguma forma, está sempre no palanque.

Mas mudança é uma estrada, não um destino. É um salto, não uma plataforma. Logo, oca se não informar quais são, afinal, os pontos de partida e de chegada. E aí está o perigo de seu uso eleitoral em 2014. Ao ser exaltada como um valor em si, a mudança torna-se o disfarce perfeito para toda a sorte e todo o azar de sentimentos e intenções que não podem se assumir frontalmente.

E foi como essa bandeira transparente que a mudança – assim, sem aposto – ganhou ares de causa maior na campanha de Aécio Neves.

Repara só. Hoje ele diz, mineiramente, que é tudo, menos um tucano. Assim que chegou ao segundo turno, logo na primeira declaração à imprensa, afirmou não ser mais o candidato do PSDB. Mas o representante de uma vontade, de um clamor, das forças da sociedade que anseiam por ela - a mudança.

Mas tal diagnóstico não resiste a 5 minutos de timelines ou conversas aleatórias de balcão. Menos ainda aos episódios de ameaças e agressões que começam a proliferar pelo país contra os eleitores e militantes pró Dilma. E em vez de amansar ou denunciar a exaltação, Aécio parece confortável em capitalizar nesse ambiente histérico e cada vez menos politizado.

Estou dizendo que os cerca de 50% de votos de Aécio são frutos de ressentimento? Não mesmo. Mas sinto que é precisamente no ressentimento que ele está buscando os poucos pontos que faltam para garantir o Planalto. E essa política surda é exatamente a que não muda.

Por isso, está claro que o sentimento que melhor traduz a complexidade das insatisfações nacionais exaltadas por Aécio e sua campanha não é o de transformação. Mas o desejo de ir à forra.

Um espírito que cresceu, de fato, com as sucessivas decepções e no epidêmico e crônico ódio ao PT. Mas encarnou de vez no país depois da derrocada de Marina Silva no primeiro turno. A completa interdição de sua candidatura e do debate nacional em torno do que poderia ser, quem sabe, uma “nova política”, abriu a estrada para Aécio. E para a mais caduca das políticas. Um Café com Leite requentadíssimo.

E que hoje tenta pautar as eleições mais por uma moral sem lastro do que pelo sentimento de justiça. Mais pela saudade de um passado fictício do que no interesse pelo futuro. E, sobretudo, que aposta mais na vontade do eleitor de derrotar do que de eleger alguém.

Eis meu ponto. Lembrarmos que a promessa de mudança, e de algum controle popular sobre ela, define e justifica uma eleição. Mas qual a natureza dela, e para onde essa mudança nos levará não é fruto apenas de nossas escolhas e dos consequentes eleitos. Mas de nossas intenções, nosso estado de espírito e das emoções que manifestamos nas urnas.

Então, Aécio, vamos conversar? Por que mudança eu também quero. Mas até aí, morreu o... Neves.