TRANSTORNO BIPOLAR ELEITORAL *

*coluna publicada na Folha de S. Paulo. Segunda de uma série de quatro para o caderno especial eleições.


Que conquista nacional seria a formação de profissionais em psiquiatria política. Que formidável para nossa saúde democrática se, nesta fase difícil, nossos partidos, campanhas e jornais contassem com a ajuda de analistas de conjuntura com formação clínica. Porque, francamente, filosofia, economia e ciência social não estão dando conta da gravidade do paciente.

Então me proponho, como diletante remunerado (ou seja, um colunista), a fazer esse papel e arriscar um diagnóstico. De eleitores a coordenadores de campanhas os sintomas são flagrantes. Vejamos:

Fortes manifestações de euforia, exaltação e irrealista otimismo; seguidas por arroubos de fúria e incontinente agressividade; e, como resultado, uma profunda e silenciosa depressão. Marina insistia em dizer que tratava-se de polarização. Na trave.

Mas temos mesmo é um claro caso de TBE. Transtorno Bipolar Eleitoral. Sigamos.

Há também uma clara tendência à repetição de argumentos, adjetivos, imagens e números; a um loop de clichês e pensamentos obsessivos impermeáveis aos fatos; como se o paciente não tivesse escolha a não ser engajar-se em atividades que, aos olhos alheios, parecem absurdas. Seja chamando a Dilma de esquerda ou Aécio de avanço, não lhe parece possível abandonar o padrão. É como se a ponderação ou a possibilidade de manter uma postura crítica fosse a ele mortificante.

Alguns dizem ser essa uma transitória militância. Não creio. Tudo aponta para TOCP. Transtorno Obsessivo-Compulsivo Partidário.

Há também uma condição transversal no espectro político. A vitimização e uma atitude agressivo-passiva em relação aos adversários. Que torna-se negligência autocrítica, uma recusa em admitir suas próprias limitações. Canalizada em imediata transferência de responsabilidade a outra entidade. Seja o povo, a elite, a mídia golpista, os blogueiros sujos, o paulista, o nordestino, a tucanada, o João Santana.

Mas que se manifesta de forma mais bem acabada no Mal-Estar na Sucessão. O que, na psiquiatria política nacional, ficou conhecido como "Sentimento de Culpa é do PT".

Traços de negação, note os altos índices de voto nulo. Profunda Síndrome de Estocolmo, como no caso da reeleição Alckmin e o segundo turno carioca. Fortíssimas paranóias, incapacidade de empatia e traços de psicose-articulista, ou TAC, Transtorno de Azevedo-Constantino. O caso é sério, não se enganem.

Mas, afinal, tem remédio?

Buscando nos anais da literatura do ramo, apenas um psiquiatra arriscou a prescrição: Timothy Leary. Ele que promoveu significativas reformas cognitivas em duas gerações, Ph.D em neuropolítica, afirmava que, para casos como o nosso, só uma intensa terapia de rosa-choque; muito engajamento físico erótico; terapia ocupacional do espaço interior. E, para reduzir a intensidade das alucinações, intervenção química.

O problema é conseguir tais remédios de tarja iridescente. Atualmente sem bula e fabricados apenas por alguns cogumelos, cactos, cipós –ou químicos em fuga. E, mais difícil ainda, será lidar com os efeitos colaterais. Porque, como o próprio dr. Leary observou, tais medicinas têm a estranha característica de enlouquecer... quem não as toma.