Embaixo da passarela

Acompanhei de longe e muito desanimado a repercussão da matéria da Veja São Paulo sobre Loemy Marques, a modelo de 24 anos que "acabou na cracolândia". E li sobre a decepção da repórter Adriana Farias ao ver seu texto abrir as comportas do esgoto midiático televisivo.

Acredito mesmo que não era essa sua intenção. Como acredito que Adriana teve sensibilidade ao buscar, escutar a contar a história da moça. Não deve ser nada agradável ver seu trabalho se tornar isca de produtores escroques e apresentadores sensacionalistas.

Mas cá pra nós? Ingenuidade esperar um resultado diferente... Afinal, poucas pautas são tão apetitosas ao sadismo compassivo dos programas vespertinos quanto a ruína de uma modelo diante do crack. O fantasma perfeito para uma sociedade tão fóbica quanto ignorante em relação às drogas. 

Ao apresentar a garota outrora linda e cheia de potencial hoje vivendo em situação de miséria e dependência química, a matéria da Vejinha amplifica os dois problemas centrais na percepção sobre o crack. 

Primeiro: a invisibilidade da demografia típica dos usuários em situação semelhante à de Loemy: negros e pardos, desde sempre pobres, muitas vezes ex-detentos, sem amparo familiar ou do estado. Sem qualquer perspectiva "promissora" segundo a norma. Não são pessoas aos olhos da mídia ou do público. Nunca foram. E que, na cracolândia, tornam-se a conveniente figuração no inferno real do qual Loemy precisa ser resgatada. Então, graças ao crack, a modelo vira capa de revista. Vai à rede nacional. E chega enfim, irônica e tragicamente, à fama.

Segundo: a ideia de que o crack é o passaporte para tal inferno. A porta sem volta da ruína. O monstro, a epidemia, a materialização do mal que pode, após uma tragada, sorver carreiras de belas modelos. Nada mais cristalizado na percepção média do Brasil. Nada mais incorreto do ponto de vista científico. Estudos sobre estudos mostram que a grave dependência química que o crack pode provocar tem mais relação com condições psicológicas, econômicas e sociais do que com a experiência em si com a substância. Que, aliás, é cocaína. A mesma molécula presente na folha de coca ou no pó para aspirar.

Loemy. Da Luz para a Ribalta. 

Loemy. Da Luz para a Ribalta. 

Comunidade de Manguinhos (foto: Bruno Torturra)

Então a exceção se torna o assunto. A regra segue na rua, sem nome ou maquiagem. Os fatos e a complexidade do tema tornam-se periféricos. E os fantasmas seguem soltos para assombrar e confirmar o que já pensa o leitor. E manter as leis exatamente onde estão. 

O mais triste para mim é que tamanho alcance de histórias como essa é profundamente erosivo ao esforço diligente que tanta gente - entre jornalistas, acadêmicos, legisladores, ativistas, médicos... - que estuda o tema, compreende as implicações profundas desse tabu e que busca desconstruir mitos e ampliar a consciência pública em relação ao tema. 

Então aproveito para pegar carona no barulho que a matéria causou para reapresentar uma reportagem do Fluxo. Sei que o vídeo é "velho", lançado em julho passado. Mas acho ainda mais relevante como contraponto e esclarecimento diante da narrativa da modelo que, mesmo diante de um triste drama, não deve ser modelo para ninguém entender o crack no Brasil.
 

É um mini doc da passagem do neurocientista Carl Hart no Brasil. Onde ele visitou de universidades à "cracolândias". Falou com políticos e usuários, médicos e ativistas. E através de sua experiência de vida e laboratório, dá seu diagnóstico preciso sobre a real epidemia que assola o Brasil: a fobia, a ignorância e o racismo por trás do "monstruoso" crack. 

Quem tiver 20 minutinhos, experimente.