Carl Hart: 'É possível entender o crack'

"A sociedade usa o crack como uma desculpa para vilanizar uma camada da sociedade. E para não lidar com o problema real: a desigualdade"

Fluxo acompanhou a visita do neurocientista Carl Hart ao Brasil. De laboratórios às favelas, de universidades às bocas de crack, a demonstração de que o "problema do crack", no fundo, não é o crack...

Carl Hart não veio ao Brasil a passeio. Não mesmo.

Hospedado de frente para o mar em Ipanema, o neurocientista mal olhava pela janela. Deu de ombros para o Pão de Açucar nem colocou o pé na areia do Rio. Seu interesse estava a 180o e muitos quilômetros da orla. "Paisagem bonita tem no mundo todo. Eu vim para conhecer a questão do crack", disse no topo do castelinho da Fundação Instituto Oswaldo Cruz, entediado com o tour pelo mais antigo e importante centro de pesquisas de saúde pública no país. Mas daquele mirante ele podia enxergar mais do que os morros a matas ao horizonte. Era possível ver a comunidade de Manguinhos, onde havia, segundo escutou, uma das "cracolândias" brasileiras.

Era lugares como esse que Carl Hart queria conhecer. E era sobre as pessoas que viviam ali, particularmente as em situação de exclusão extrema, que Carl Hart queria falar em sua série de compromissos públicos no Brasil.

Falou em auditórios lotados no Rio, São Paulo e Brasília. Deu dezenas de entrevistas e autografou centenas de cópias de seu livro "Um Preço Muito Alto". 

Fluxo acompanhou de perto a estada de Carl Hart. Esteve com ele nas conferências, nas visitas às comunidades, hospitais e cenas de uso de crack. Na Marcha da Maconha e nas vans que o levava dos hotéis 5 estrelas para as periferias. Em salões nobres e em comunidades ocupadas pelo exército.

E produziu um min-documentário sobre Hart testemunhando a manifestação das contradições entre o que a sociedade pensa e o que a ciência tem a dizer sobre o "problema do crack" no Brasil. E sobre como ele lamentou perceber que hoje nosso país está repetindo os mesmos equívocos e a mesma paranóia em relação ao crack que os EUA viveram nos anos 1980.


Direção: Bruno Torturra
Câmeras: Fernando Ligabue, Bruno Torturra e Tatiana Tófoli.
Edição: Felipe Carreli e Bruno Torturra.