Sociedade da informação (2)

Escritores brasileiros abrem o voto para o Fluxo

reportagem Ronaldo Bressane • arte DW RIbatski

Acima, Reinaldo Moraes, Cristóvão Tezza, Michel Laub, Gregorio Duvivier; abaixo, Simone Campos, Sérgio Sant'Anna, Vilma Arêas

Acima, Reinaldo Moraes, Cristóvão Tezza, Michel Laub, Gregorio Duvivier; abaixo, Simone Campos, Sérgio Sant'Anna, Vilma Arêas

Continuando nossa saga em busca das opiniões sobre política dos escritores brasileiros contemporâneos (aqui está a primeira parte), pedimos que mais sete reconhecidos escribas (e aqui estão suas fichas) nos abrissem seu voto e falassem sobre seus ideais e ideias.

Leitores que vão além do pensamento binário e do Fla-Flu praticado por PT X PSDB (jogo embolado agora por Marina Silva), e que apreciam histórias e opiniões com contradições e nuances, sejam bem-vindos ao nosso segundo Fluxo de Consciência. 

Boas minhocas nas cabeças de todos.

1. Em 2013 o Brasil saiu do armário.

Pelo menos politicamente. Talvez motivados pelas jornadas de junho, mesmo aqueles mais arredios à ação ou reflexão política soltaram seus demônios. Incluindo os escritores.

Há desde os cotidianamente indignados, que xingam muito nas redes sociais (você sabe quem), os que usam o assunto como matéria-prima ficcional (Paulo Scott no romance Habitante Irreal) quanto os que usam palcos da literatura para tocar em feridas abertas (Luiz Ruffato na Feira de Frankfurt) e até os que batem boca direto com os políticos (como no recente telecatch entre JP Cuenca x Eduardo Paes, na GloboNews), e mesmo os que, por conta de um mal-entendido, ocupam a tribuna lascando a plataforma deste ou daquele candidato (Milton Hatoum indignado com o recuo de Marina Silva na questão LGBT).

O belo filme O Primeiro Homem, que (também) trata da maneira como Albert Camus lidava com a política na Argélia e na França — e do quanto sofreu para sustentar suas posições —, faz pensar em quão distantes nós escritores brasileiros estamos do modelo de atuação do autor d'O Estrangeiro. Em 2014, o intelectual talvez tenha perdido sua relevância no palco político.

Sem mais delongas: qual é a sua?

Vilma Arêas, militante histórica da esquerda nos anos 70

Vilma Arêas, militante histórica da esquerda nos anos 70

VILMA ARÊAS           Tive muita desconfiança logo no segundo dia das manifestações do passe livre pela maneira como a política estava sendo vivida — contra os políticos, contra as  mediações democráticas —, posições que os fascistas se enrolando nas bandeiras sempre defenderam. A democracia exige mediações, temos que avaliá-las, não aboli-las. Essa bandeira da corrupção sempre foi usada por políticos de direita, como o Collor, porque embora isso tenha de ser fiscalizado, é mais ou menos inútil. O capitalismo é corrupto pela base: quem tem não trabalha, quem trabalha não tem. Temos é que fazer a reforma política. Mas nunca vi a direita tão assanhada como agora.

REINALDO MORAES          Em junho do ano passado estava numa toca da Mantiqueira escrevendo, tiritando de frio e alheio às manifestações. Única exceção foi um dia em que topei com um congestionamento-monstro na estrada pra Campos do Jordão, muito percorrida pela burguesia paulistana para acessar seus redutos monteses. O motivo era um protesto que paralisou a Dutra por várias horas. Praguejei contra tudo e contra todos e peguei outra estrada, a de Monteiro Lobato, o que fez duplicar meu tempo de viagem até Gonçalves, no sul de Minas, onde alugo uma casota. Quando contei isso pro meu doce amigo Marechal, o grande Álvaro da Costa e Silva, ele lembrou de um episódio ocorrido em 1948, em Bogotá, durante o tristemente célebre "bogotazo", quando o assassinato de um candidato a presidente com grandes chances de ganhar o pleito deflagrou protestos incendiários na capital da Colômbia, com centenas de mortos. Conta o Marechal que o Antonio Callado, então correspondente de um jornal brasileiro, teve que se mandar de um hotel pouco antes do prédio ser incendiado pelos manifestantes. Envolto numa bandeira brasileira, foi se refugiar na embaixada do Brasil, onde topou com o diplomata e escritor João Guimarães Rosa. O genial criador de Riobaldo e Miguilim estava sereno, alheio ao apavorante quebra-quebra lá fora. Quando Callado perguntou o que o Rosa andara fazendo enquanto a cidade ardia lá fora, o mineiro respondeu, fleugmático: "Lendo Proust". Foi mais ou menos o meu caso. Só que eu tentava ser Proust, acoitado entre araucárias e longe do buxixo.

GREGORIO DUVIVIER       Estamos muito longe de Camus. Escrever é, ou deveria ser, pelo menos, se posicionar. Odeio o discurso chapa-branca e, mais ainda, o discurso contra tudo e todos — forma alternativa de ser chapa branca. É preciso ser pontual para ser um apoio efetivo. 

SIMONE CAMPOS               Meu maior combate é de guerrilha, no corpo a corpo, no dia-a-dia; se (por exemplo) ouço comentariozinho racista, ou se tentam passar a mão na minha bunda, ou se furam o sinal e quase me atropelam, exponho e confronto a pessoa de forma firme e desapaixonada, com olhar duro.

CRISTÓVÃO TEZZA            Nos final dos anos 60, quando comecei a escrever, a literatura era uma atividade de combate político e existencial. Isso marcou muito minha geração. Fazer arte não era uma coisa de gabinete; era um modo de viver. Além disso, a ditadura criou uma divisão forte no país, que exigia uma resposta, talvez mais moral do que política. Já quase com 40 anos, entrei na universidade e me tornei um funcionário público por quase 20 anos. Ela me deu segurança para escrever, e um certo isolamento da vida concreta. Em 2009 pedi demissão e hoje sou de novo um escritor full-time. Qual é a minha? Tenho claro que a literatura não pode ser meramente um instrumento de mensagens políticas. Mas também sei que nenhuma literatura de qualidade deixa de tocar no mundo social e político. Ninguém vive numa bolha. Ao escrever, não penso objetivamente na realidade política, mas ela entra em tudo que escrevo. O terrorista lírico (80) é a história de um sujeito que explode uma cidade inteira, um pré-Bin Laden… :) Ensaio da paixão (85) é um livro sobre uma comunidade alternativa sob o tacão da ditadura, num registro fantástico. E O professor é um livro que toca a questão política da história brasileira recente em todas as páginas.

SÉRGIO SANT'ANNA          Nesta idade madura, 72 anos, considero-me um individualista convicto e não me agradaria participar de um coletivo. Meu modelo de ação política era o genial Millôr Fernandes. Participar, sem perder a independência. Mas estou disposto a apoiar causas que levem ao caminho da justiça e da democracia. Sou simpático às manifestações pelas causas que seguem esse caminho, embora nem sempre me pareça que a ação dos militantes seja a mais apropriada.

2. A arena pública deveria ser mais ocupada por escritores?

Laub adverte: política pode causar mal à literatura

Laub adverte: política pode causar mal à literatura

MICHEL LAUB     Cada um faz o que quer. Eu não faria, até por temperamento. Posso me manifestar na imprensa ou em redes sociais. Dar expediente full time no governo ou no congresso é outra coisa. Política profissional tende a limitar a liberdade intelectual — você não pode dizer tudo o que quer, precisa acomodar contrários, esse tipo de coisa que por princípio é ruim para a literatura.

SÉRGIO         Detesto os políticos que, com raríssimas exceções, são espoliadores do povo e do país. Jamais seria um deles.

GREGORIO     A participação política dos escritores pela via institucional é ótima para a via institucional mas péssima para os escritores. O sistema político não pode ser mudado de dentro. Enquanto não houver reforma política, é difícil um deputado fazer diferença. 

SIMONE         Existem ativistas (e alguns deles são escritores) que acusam quem faz merda de outra maneira: é gente que organiza e vai nos protestos e eventos, cuja presença na internet é politizada... estão sempre postando textos sobre ou contra a opressão, tentando descobrir o melhor meio de se referir a pessoas trans, essas coisas. Tenho bons amigos nesse perfil, leio com interesse e às vezes compartilho coisas postadas por eles ou vou nas passeatas. Mas nem todo mundo é igual, e me preocupa a uniformização de conteúdo. Meu conteúdo não é esse.

REINALDO     Sei é que muitos tentam, como o Gore Vidal, nos States, que concorreu a cargos políticos duas vezes, sem sucesso, e o Vargas Llosa, que tentou ser presidente do Peru e também deu com seus arrogantes burros n'água. E o Vaclav Havel, dramaturgo importante da antiga Tchecoslováquia, que, esse sim, chegou a virar presidente da nova República Tcheca. Quanto a mim, nem tenho roupa pra me candidatar a porra nenhuma. E creio que o povo brasileiro deveria me agradecer por isso.

TEZZA            Seria maravilhoso. Não há salvação social fora da democracia representativa — é preciso urgentemente melhorar o padrão dos políticos. Escritores entrando no jogo é uma coisa sensacional. Mas são coisas que ou acontecem naturalmente, por uma mudança de percepção do papel dos escritores, ou não acontecem. Não é possível forçar essa barra.

3. Você tem um credo político? É de esquerda, direita, tico-tico no fubá ou essas categorias são irrelevantes e datadas?

Tezza: não existem mais esquerda e direita

Tezza: não existem mais esquerda e direita

TEZZA            Não sou ativista, não tenho temperamento, e sofro com o mundo da opinião direta (sou cronista da Gazeta do Povo aqui de Curitiba, e crônicas de temas políticos sempre são complicados para mim), mas acho saudável que a política entre reflexivamente no texto literário. Como todo cidadão que se tornou adulto nos anos 60, tenho um viés atávico pela esquerda. A chantagem emocional da esquerda é muito forte: veja aquele pobre dormindo na calçada, contemple os corruptos, observe o totalitarismo da ditadura de direita, perceba a vil exploração do homem pelo homem — quando vier o socialismo, tudo isso vai acabar! Não há adolescente bem intencionado que resista. Em nome desse ideário criaram-se alguns dos regimes totalitários mais monstruosos do século 20. E ainda há quem ache que Cuba, aquela gerontocracia hereditária, seja modelo de alguma coisa. A dicotomia esquerda-direita não significa mais nada. A direita brasileira sempre amou o Estado e o “socialismo”. E o projeto da esquerda, hoje, é um projeto de Estado, não um projeto de governo — um desastre monumental. Tento ser realista. Sinto um calafrio com o processo de estatização institucional. Um Estado monstro, aparelhado, na mão de missionários fervorosos e evangelistas políticos. É assustador.

GREGORIO     Acho triste que batalhas que deveriam ser comuns a todos os seres humanos são taxadas de esquerdistas. Sou a favor de uma melhor distribuição de renda, de educação excelente para todos, saúde pública excelente para todos, descriminalização das drogas, do aborto, criminalização da homofobia, do racismo, sou a favor do Estado radicalmente laico acarretando o fim da isenção fiscal das igrejas. São pautas de esquerda? Então sou de esquerda. Mas é doentio que a sensibilidade social seja exclusividade da esquerda.

SIMONE         Acabo sendo mais de esquerda, mas acho o tamanho do Estado brasileiro monstruoso. E é uma piada como esse Estado interfere na nossa vida só no que não deve -- proibindo aborto e droga, estipulando impostos altíssimos, encargos trabalhistas absurdos. Esse Estado não usa esse tamanho todo para dar escola, saúde, esgoto, moradia decentes. Tradutores não podem abrir uma microempresa individual (a MEI) — sendo que profissões muito mais específicas podem ter número de MEI. Em suma: esquerda, mas uma pitada de liberalismo econômico e para os nossos corpos seria bem vinda.

LAUB     Na área dos costumes, sou a favor de mais liberdade do que se tem hoje em termos institucionais, daí apoiar legislação favorável ao casamento gay, ao usuário de drogas etc. São bandeiras hoje mais de esquerda que de direita (embora haja a direita liberal clássica, a favor de tudo isso). Na economia me guio pelo bom senso — mais Estado em algumas áreas, menos em outras, contra a burocratização excessiva e a corrupção, a favor da cura do câncer etc.

REINALDO     Tenho a ilusão de estar sempre à esquerda das direitas, à direita das esquerdas e o mais longe possível do centro. Acredito que num país como o Brasil, meio rico e meio pobre, é o Estado quem deve fazer o meio de campo redistributivo. Até hoje tem feito isso muito nas coxas, em que pese o relativo sucesso dos programas ao estilo do Bolsa Família. Falta obrigar esses cuzões que se alternam no poder a moralizar, despolitizar, universalizar e incrementar os serviços públicos básicos. Essa devia ser a meta de qualquer socialista realista, e não a extinção da propriedade privada sob uma ditadura do proletariado e merdas do gênero.

4. Votou em quem nas últimas eleições para presidente? Fez campanha abertamente? É favorável ou contra isso?

VILMA     Voto com o PT e votarei, porque apesar das críticas que merece, acho que foi a melhor coisa que nos aconteceu.

SÉRGIO     Sempre votei em Fernando Gabeira. Nas últimas eleições anulei meu voto, pois nem Serra nem Dilma me pareciam palatáveis para a presidência do país. Nas últimas eleições, para vereador, votei em Sônia Rabelo, do Partido Verde.

GREGORIO     Votei no Plínio no primeiro turno. Fiz campanha. No segundo turno, votei Dilma. Sou favorável, claro.

TEZZA     Votei no Serra, uma escolha pessoal, mas não faço campanha. Tenho um lado meio camponês, ou meio chucro, que não veste camisa com propaganda de nada. Não uso camisa com dizeres de nada, nem dos Beatles. Ainda vivo sob a sombra da mitologia individualista de parte da minha geração.

LAUB     Votei nulo. Nos últimos anos, só me mobilizei quando havia ameaças do tipo Russomanno ganhar a eleição — neste caso, até campanha sou capaz de fazer.

REINALDO     Votei na Dilma, sem grande entusiasmo. A alternativa era o bostão do Serra, que chutou a prefeitura de São Paulo pra ser candidato, mordendo a própria língua.

Simone: primeiro o local, depois o universal

Simone: primeiro o local, depois o universal

5. Defende — ou milita por — alguma causa política específica?

SIMONE     Me definiria como antiopressão e pró-diversidade. Amo ter minha privacidade e acho que isso deve ser direito de todo mundo. Sou bem mais atenta a questões locais que me afetam diretamente. Botafogo (meu bairro) precisa de mais segurança (e de uma nova rede de esgoto). Sobre o caso do rapaz preso no poste, que foi no Flamengo, aqui perto: acho que quem junta um monte de gente pra "fazer justiça com as próprias mãos" é criminoso, mas o rapaz era ladrão também. Mas não sou a favor de mandar todo mundo pra cadeia. Sou a favor de penas alternativas — tipo catar lixo na estrada — e de uma polícia melhor, que gaste sua energia investigando e reprimindo com inteligência, não cassetetes. Aí, quem sabe, eu poderia correr no Aterro sozinha em vez de em uma academia envidraçada.

TEZZA            Minhas posições políticas, culturais, literárias, existenciais estão expressas na coluna semanal que mantenho no jornal Gazeta do Povo. Mas não sou militante de nada — apenas um escritor com algumas opiniões que, filtradas pelo olhar literário, vão a público.

LAUB     Não milito e com frequência me irrito com os métodos e argumentos da militância. Mas não dá para confundir método com ideias. Sou a favor da maioria das causas que esse pessoal defende. Já escrevi colunas na Folha de S.Paulo sobre alguns desses temas.

SÉRGIO         Entre as causas pelas quais se brigou nas ruas achei a Copa do Mundo realizada no país uma espoliação das necessidades mais básicas da população, como educação e saúde. Gosto de futebol como espetáculo e sou torcedor fervoroso do Fluminense. Mas daí a aceitar que gastem bilhões de reais na construção de estádios é outra história. A busca da Copa de 14 foi demagogia de Lula, e Dilma já encontrou um fato consumado. O único erro da militância contra a Copa foi ela se dar depois deste fato já consumado. Houvesse uma militância organizada, ela teria lutado contra a Copa enquanto ainda era tempo. Eu teria apoiado essa luta, se tivesse encontrado o veículo adequado, um abaixo-assinado em jornais, ou mesmo manifestações de rua para alcançar este objetivo. Agora é tarde.

Sant'Anna: processado em IPM por ser da Ação Popular

Sant'Anna: processado em IPM por ser da Ação Popular

6. Tem ou teve uma militância política em algum partido ou causa? Já trabalhou no governo ou no Estado ou em alguma campanha política? Gostou?

SÉRGIO     No meu primeiro emprego, na Petrobrás, em BH, como auxiliar de escritório, modesto, portanto, fui da diretoria do sindicato dos trabalhadores na obra de construção da Refinaria Gabriel Passos. Era abertamente de esquerda, militando na Ação Popular [de que também fizeram parte José Serra, Plínio de Arruda Sampaio e Cristovam Buarque], e, no Golpe de 64, fui demitido e processado num Inquérito Policial Militar. E fui anistiado não sei quantos anos depois. Mas não recebi nem pleiteei aquela gorda indenização, até porque já trabalhava na Justiça do Trabalho e não fazia sentido receber mais dinheiro do governo. Me sentiria envergonhado. Bom, tudo isso para explicar que fui militante político. Mas, entre as coisas boas da minha vida, está a demissão da Petrobrás, que era como um colégio interno e me impedia de tentar a literatura, como era do meu desejo.

VILMA     Sempre fui de esquerda, nos anos 70 militei na retaguarda da Dissidência Comunista da Guanabara [que virou o MR8, depois integrou o PMDB e agora é o PPL], nada de importante, mas fui detida, ameaçada com minhas filhas ("você tem duas filhas muito bonitinhas"), fui expulsa da UFRJ, o Fausto [Cupertino, jornalista, seu marido à época] foi preso e muito torturado, e por isso viemos para São Paulo.

TEZZA     Jamais. Quando adolescente, tinha, é claro, uma simpatia direta pelos movimentos de esquerda — até porque via parentes e amigos sendo presos e perseguidos —, mas, por ser muito jovem à época, nunca me filiei a nada. Em seguida, a vida comunitária do grupo de teatro de que participei deu uma dimensão mais “existencial”, por assim dizer, aos meus sonhos.

REINALDO    Em 1978 ajudei um pouco na campanha do Fernando Henrique, então um nome de esquerda, para o Senado. Ele virou suplente do Montoro que, ao ganhar o governo do estado, em 82, abriu-lhe as portas do congresso, pois FHC assumiu seu posto de senador. Fiz isso porque era amigo do Paulo Henrique, filho do homem. Fui, por exemplo, vigiar a apuração dos votos num dos lugares em que isso era feito: o aristocrático Clube Paulistano. Não chega a ser um feito que possa rivalizar com a biografia de um Che Guevara, imagino.

SIMONE     Meu primeiro trabalho na vida foi como ghost-writer e redatora de jingle de campanha de um vereador evangélico chamado Valdeci Paiva. Ele ganhou a eleição com uma quantidade bem grande de votos. Tinha 14 ou 15 anos nessa época e saí da igreja aos 17. Depois ele foi deputado. No meio de um mandato, foi assassinado com 19 tiros à queima-roupa indo para o trabalho. Até hoje um crime mal resolvido. Ainda aos 17, ajudei um vereador do PT, mas ele perdeu a eleição. Resultado: antes de poder votar eu estava muito desiludida com a política, especialmente a misturada com religião. Ainda assim, voto no candidato menos pior. Às vezes voto em alguém em quem acredito, como o vereador Eliomar Coelho.

7. Política e literatura se misturam?

Reinaldo: literatura fala a língua do poder

Reinaldo: literatura fala a língua do poder

REINALDO    Se misturam, sim — na linguagem, mais do que na temática. Isto porque a gente escreve na língua dos homens, como diria São Paulo apóstolo, e não na dos anjos. E tudo que se refere aos "homens", leia-se ao humano, implica o eterno jogo do poder.

SÉRGIO     Não trilho caminhos políticos. Escrevo o que quero e penso e valorizo o próprio trabalho literário como contribuição ao país e sua. Mas um dos livros brasileiros recentes que mais admiro é Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, raro casamento entre visão política e qualidade literária. Subliteratura política é desserviço à causa que defende.

VILMA     Tudo é atravessado pela política, mas os processos não são iguais. Acho que estão falando muito. Se fotografando sem parar. Opinando demais. Não importa o quê. Ah, como somos interessantes! Olha eu aqui, ó, ó. Todos sabem que o instrumento exige seu uso. E sabemos que é difícil viver offline.

TEZZA     Toda grande literatura tem uma dimensão política, está imersa no seu tempo. O resto são circunstâncias, temperamento do escritor, situações concretas que exigem resposta. Assim como a política na literatura criou panfletos, também criou belos romances, como Habitante irreal, do Paulo Scott.

LAUB     Tenho livros que falam de questões que podem ser consideradas políticas (sistema judicial brasileiro, violência nas escolas, minorias etc.). Mas acho que a literatura não se limita a isso. O escritor tem liberdade para fazer o que quiser, inclusive ser 100% alienado.

SIMONE         Vejo a atuação política como um ecossistema. Um depende do outro, nem todos podem ser a mesma coisa, senão o equilíbrio desaba. Cabe à pessoa julgar como ela vai se sentir e agir melhor na vida, a depender das contingências (que também devem ser questionadas, é claro). Mudando de metáfora, também gosto de pensar nos tipos de ator político como em classes de RPG. Até porque acho que toda pessoa desliza entre classes ao longo da vida. Se você está jogando como ladino ou espião, não vai querer chamar atenção sobre a sua pessoa. Mas quem sabe no próximo ato? Veja bem, não estou advogando vira-casaquismo oportunista, apenas uma flexibilidade de atuação em resposta a circunstâncias.

GREGORIO     Política se mistura com tudo. O que você come é uma escolha política. O que você escreve, nem se fala. Escrever é sempre levantar alguma bandeira. 

8. O pensamento político do escritor ecoa na formação da opinião da sociedade?

Gregorio: política tem que ser feita pelas próprias mãos

Gregorio: política tem que ser feita pelas próprias mãos

GREGORIO     Sim, o tempo todo. Mudou muito a minha vida. Deve mudar a sociedade também.

REINALDO    Nunca ouvi falar de um movimento político que tenha nascido sob inspiração de um movimento literário. Talvez as manifestações nativistas nas letras do século 18 no Brasil tenham levado alguma água pro moinho de movimentos políticos, como o da chamada Inconfidência Mineira.

TEZZA     A literatura ainda é um valor social importante. As pessoas leem pouco, mas em algum grau respeitam. Agora, o seu poder social, hoje, é mínimo. Diferente, por exemplo, do poder que a literatura teve na Europa no século 19 — todos os grandes temas do mundo passavam pela literatura. Hoje a literatura é quase arte de especialistas. A competição com artes muito menos exigentes como o cinema ou TV é quase mortal para quem escreve. Mas a literatura transforma as pessoas, o que é muita coisa.

LAUB     Pode mudar a individualidade do leitor, o que não é pouco. Coletivamente acho mais difícil, pelo menos no caso da ficção contemporânea. 

SIMONE         Quando escrevo ficção, tento falar do que eu conheço segundo as minhas neuras pessoais. Me preocupo em comunicar isso de forma interessante para outras pessoas com outros perfis — mas sem bajulação. Meu próximo livro, como todos até agora, tem nuances políticas: uma moça cosmopolita que gosta de meninos e meninas e um ateu local se veem no meio de uma população evangélica não uniforme, de várias denominações. Ah, nesse mesmo lugar tem uns ricos e "novos classes C" achando que podem comprar o sexo que querem sob medida, sem mais complicações. Mas veja bem, eu não posso falar assim no livro. Pois ficaria chato. Cartilhão. No meu primeiro livro, eu tinha 17 anos. Não tinha essa cancha de escrever de modo a engajar o leitor na leitura — mas já era um livro, como se diz, politizado, anticonsumista, não deslumbrado. Ler — e escrever — esclarece as ideias (tá aí tua dimensão política da literatura.)

9. Que acha da democracia direta? Ação direta? Desobediência civil?

VILMA     Nas recentes manifestações, tinha ficado preocupadíssima com gente embrulhada em bandeiras, "eu sou o país", coisas semelhantes, e advogando a extinção da classe política. Pasme! Então querem tudo sem mediações? Tudo resolvido num passe de mágica?

Literatura ilumina ou obscure — depende do ângulo

Literatura ilumina ou obscure — depende do ângulo

TEZZA     A democracia direta é uma arma sempre perigosa pelo quanto de desrespeito às opiniões minoritárias, e tende a corroer a estabilidade institucional. Sem este mínimo de estabilidade, não há salvação - é simples assim. Sobre ação direta e desobediência civil — a nova geração (é duro falar como um velho senhor, mas vai lá) não viveu uma ditadura e não sabe o que é isso. Ações de ruptura violenta se justificam quando o Estado é criminoso. No Brasil, o governo é muito ruim, mas vivemos em pleno Estado de direito, com todas as instituições funcionando, uma imprensa livre, eleições regulares, etc. A desobediência civil é um caso à parte. Mas, sempre, ações violentas, irracionais, estúpidas, como as que estão povoando parte do dia a dia brasileiro, são desestabilizadoras no pior sentido. É um delírio total achar que a quebra institucional do país vai nos levar a alguma situação melhor. Vivemos numa corda bamba de situações limite — a violência cotidiana, por exemplo, entre outras razões fruto da brutal urbanização brasileira nas últimas décadas — que exige justamente manter a cabeça no lugar. O país está perigosamente polarizado.

LAUB     Democracia direta pode funcionar em alguns casos. Em outros, pode dar em fascismo: pobres das minorias se dependessem de plebiscitos. A democracia representativa é corrupta e ineficiente, mas as alternativas atuais são piores. O desafio é reformar o sistema sem jogar fora o que ele tem de bom.

REINALDO     Foi o caminho das primaveras árabes e, agora, da Ucrânia. A chamada voz das ruas conseguiu varrer figuras podres do poder. Mas as que entraram no lugar não parecem exatamente anjos redentores. Pelo menos a história se move. Só que não dá pra tocar um processo político só no grito. Se os conflitos de interesses não tiverem uma arena política para se acomodarem, bem ou mal, vira a Síria. Duvido que o Guimarães Rosa conseguisse ler Proust em Aleppo, por exemplo, sob bombardeio dos aviões do filho da puta do Assad.

GREGORIO     Simpatizo muito com os anarquistas. Acho que política deve ser feita com as próprias mãos. O voto não pode substituir a luta cotidiana e não isenta ninguém de responsabilidade.

10. Abaixo-assinados recheados de nomes de escritores servem para algo?

REINALDO     Servem pro signatário dormir uma ou duas noites com a consciência tranquila, sem correr o risco de chamuscar o rabo.

SIMONE     Sobre abaixo-assinados: há, sim, gente que encarna o ativista ferrenho pra se promover. Mas as pessoas não são burras.

TEZZA     Eventualmente, sim. Depende do tema, do momento, da relevância. Por exemplo: assinei um manifesto contra a proibição das biografias, que vigora de fato na lei brasileira, junto com nomes importantes da cultura brasileira contemporânea, e eu acho que isso terá alguma consequência sim, no conjunto da defesa da modernização da lei.

GREGORIO     Já serviram. Não sei se ainda servem. Atrapalhar, não atrapalham.

11. Em quem vai votar (presidente, governador, senador, deputados federal e estadual)?

GREGORIO     Luciana Genro, Tarcisio, Pedro Rosa, Jean Wyllys, Marcelo Freixo.

LAUB     Não decidi se e em quem vou votar. Minha tendência mais forte no momento (1/9) é só reativa: não votar na Marina.

TEZZA     Estou realmente em dúvida! Sei que vou fazer uma escolha em breve — não acredito em voto em branco —, mas não parei para decidir ainda. 

SIMONE     Vou votar Psol para quase tudo. Para governador, vou votar no Tarcísio Motta. Para deputado estadual, Freixo ou Eliomar. Federal, Jean Wyllys. Senador, Romário. Presidente, estou em dúvida entre Eduardo Jorge, Dilma (PT) e Luciana Genro.

SÉRGIO     Para presidente, Marina Silva.

VILMA     Dilma. Apesar dos grandes erros do PT — assino embaixo, concordo com muito das críticas — ainda acho o melhor caminho. Ninguém pode negar que a vida do povo explorado melhorou (mas a classe média também enriqueceu, até eu, que vivo andando hoje de táxi, é um luxo só). Não podemos arriscar.

REINALDO     Marina. No resto, vou votar no Lôchas pra todos os cargos. Só não me pergunte quem é o Lôchas. Seria constrangedora a minha resposta.

Semana que vem: o fluxo de consciência de André Sant'Anna, Vanessa Barbara, Joca Reiners Terron, Elvira Vigna, Raimundo Carrero, Carlos Henrique Schroeder e Bruno Azevêdo