Feridas de Junho. Quelóides de Outubro

 foto: Bruno Torturra

foto: Bruno Torturra

"Esta parceria com o Rio é o melhor exemplo de que todos os governos podem fazer por segurança. Aqui foi onde a política de integração e cooperação com os governos estaduais começou, e tenho orgulho de ter apoiado o projeto das UPPs"

Foi o que disse hoje à tarde Dilma Rousseff, ao lado de Pezão e Eduardo Paes, antes de assinar o decreto que prorroga a presença das Forças Armadas na Comunidade da Maré. O trio estava lá na Maré, aliás.

Curioso, para não dizer ridículo, que foi Lindbergh Farias, amargando um quarto lugar na corrida para o Guanabara, perdendo feio para Pezão, quem apresentou no Senado a PEC 51. O projeto que pode reformar as polícias do Brasil. Bizarro, para não dizer vexaminoso, que Dilma sinta-se mais confortável ao lado de Pezão do que defendendo as bandeiras e as plataformas do petista. E que diga, às vésperas das eleições, ser o "melhor exemplo" o modelo carioca de segurança pública. Que, a essa altura, diga ser "integração" a manutenção de comunidades sob a vigilância de soldados. Que sinta "orgulho" das UPPs.

Eu ainda não esqueci de Amarildo. Até porque fui na casa onde ele morava e conheci sua família durante a visita do Papa. E vi o medo de seus filhos ao passar com um jornalista na frente da UPP que o capturou. Ainda não esqueci da repressão, das nuvens de gás lacrimogêneo que respirei nas manifestações do Fora Cabral, perguntando onde estava o pedreiro desaparecido. Não esqueci da vigília na cadeia quando meu companheiro de Mídia Ninja Filipe Peçanha foi preso ao vivo, transmitindo a repressão. Nem do P2 que jogou um molotov na Tropa de Choque. Dos que incriminaram Bruno Telles e escaparam impunes. Isso para não sair do Rio...

E claro que não esqueci da complacência, para não dizer cumplicidade, do Ministério da Justiça à brutalidade policial por todo o país. Nem da vergonha nacional que foi a mais recente repressão unificada à dissidência durante a Copa do Mundo.

 O decreto de Dilma ao lado de Pezão e Paes pode parecer pequeno perto da corrida para o Planalto. Para mim não é. Como não é mero detalhe ver tanta gente que viveu, sofreu e viu a barbárie de Estado esquecendo que polícia, a liberdade de manifestação, os direitos humanos foram, senão o estopim, o combustível para o transe político de 2013. E que deveriam estar no topo das prioridades eleitorais desse ano. 

Não estão. Nem incidentalmente.

Não fosse por Luciana Genro e Eduardo Jorge, direitos humanos não seriam citados nos debates. Manifestações tampouco. Nem as comunidades ocupadas por exércitos, os desaparecidos, os presos em passeatas, os jornalistas agredidos. PM é um não-assunto. Também não é a democratização da mídia. Ou o fim do financiamento privado de campanhas políticas. 

Tudo isso para defender um ponto: Vote, defenda seu voto, faça campanha para quem quiser. Mas não esqueça do que passamos.

Junho não começou em junho, mas deságua nesse outubro. Se eleitores e militantes de Dilma e Marina (ou de qualquer candidato a qualquer cadeira) não mantiverem críticas e demandas claras atreladas ao voto; se o PT for reeleito nos braços do povo sem uma profunda autocrítica; ou Marina chegue ao planalto erguida pelo sentimento "anti-PT", alavancada por tucanos em busca de um novo ninho, temo que vamos levar para 2015 apenas o pior de junho. E deixar na estrada as demandas e as esperanças fundamentais daquele período. 

Hoje vejo Dilma mantendo as tropas na Maré. Alckmin levando no primeiro turno. Pezão ou Garotinho no Guanabara. O establishment petista abraçando o discurso do medo para ganhar (e ganhando) pontos eleitorais.

É isso mesmo ou meu ácido bateu errado? 

Quero muito estar enganado. Mas sinto o status quo político, policial e eleitoral se recompondo antes das eleições para, ao que tudo indica, fechar as feridas abertas em junho em um grosso e grotesco queloide. 


E sobre a Maré ocupada, uma breve declaração de Carl Hart em reportagem do Fluxo.