1989: Diretas lá

Foto de resolução tão baixa quanto a do eleitor do carro.

Foto de resolução tão baixa quanto a do eleitor do carro.

"Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que, ano após ano, costuma recuar diante de nós. Ontem fomos iludidos, mas não importa – amanhã correremos mais rápido, esticando nossos braços mais além… E numa bela manhã. 
E assim avançamos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente de volta ao passado."

Últimas linhas de "Great Gatsby", de F. Scott Fitzgerald


Foi a primeira eleição direta para a presidência do Brasil desde o golpe militar. A primeira campanha para o Planalto pós Constituinte de 88. A primeira com dois turnos. E, mais importante, a primeira eleição direta para presidente em um Brasil repleto de televisores. Uma só rede nacional, em um país pós-trauma - e dezenas de milhões de eleitores virgens. 

Era um desfile de toda a classe política brasileira, finalmente liberada para testar suas armas e seus argumentos para chegar ao Planalto. Pilares do movimento democrático, da esquerda perseguida. Do empresariado liberal. Da já caduca Arena. Ex-presos políticos. Ex-biônicos. Oportunistas e grandes lideranças. 22 chapas!

Lula sintoniza Ulisses.

Lula sintoniza Ulisses.

Brizola, Covas, Ulisses, Maluf, Freire, Gabeira, Aureliano, Caiado, Afif, Enéas... Um efêmero Sílvio Santos!

Collor e Lula.

E a Globo, claro. 

Era também o campo de testes de uma ciência ainda embrionária no país. A das campanhas nacionais. Orçamento baixos, regras pouco claras, e comerciais que tentavam a todo custo conquistar um eleitor não mapeado. Uma represa aberta para o jornalismo, que estava há mais de 20 anos contido par tratar de política livremente. Assim como o humor. 

Maluf, Afif e a Casseta. 25 depois, ainda engatados na política nacional.

Maluf, Afif e a Casseta. 25 depois, ainda engatados na política nacional.

Eu fiz 11 anos de idade durante a campanha de 1989. Minha memória dela é mais presente, viva e nostálgica do que qualquer outro evento social que já tenha vivido. Nenhuma eleição posterior foi para mim tão excitante quando aquela. Era como se a escolha do presidente, sob a qual eu não teria a menor influência, era minha também. Decidia, mudava, levava meu voto a sério. Colecionava a Veja, a Casseta Popular, adesivos e bottons de qualquer candidato. E nada no meu dia, durante aquelas semanas, era tão aguardado quanto o horário eleitoral.

Na madrugada da última sexta, sonhei com 1989.

Quando acordei nesse sábado, me dei conta de que, em 2014, ainda não liguei a TV para assistir a um horário gratuito sequer. O que vi das campanhas de 9 dígitos e feitas em alfaiataria publicitária foi pela internet. Absolutamente desinteressado no que os comerciais dos partidos tem a me dizer, absolutamente compenetrado nos torrenciais e disléxicos posts e despautérios, nauseado pelo superficialidade da análise alheia. Da minha própria. Incapaz de me entusiasmar com a paisagem eleitoral. Ou de esquecê-la. E me bateu um conveniente revisionismo.

Paulo Maluf, Mario Covas, Marília Gabriela, Lula, Ronaldo Caiado, Guilherme Afif Domingos antes do antológico debate da Band. Quem não viu, google já!

Paulo Maluf, Mario Covas, Marília Gabriela, Lula, Ronaldo Caiado, Guilherme Afif Domingos antes do antológico debate da Band. Quem não viu, google já!

Em uma manhã no Youtube, no cármico Youtube, revi dezenas de comerciais, discursos e debates. 25 anos depois, aqueles reclames e entrevistas foram uma aula de anatomia eleitoral. Momentos históricos, irreproduzíveis hoje dado o império do marketing político. Arroubos de fresquíssima sinceridade ou descarada hipocrisia em longos takes de olho no olho na câmera. E tantos discursos de estranha semelhança com o que escutamos hoje.

A campanha de 1989 tornou-se um Raio X das entranhas de todas as subsequentes. Estão lá, em plena puberdade, os argumentos, apelos e contrastes de 2014. Alguns dos mesmos personagens em uma dança das cadeiras de 25 anos. Hoje, alguns mortos falando para os vivos. Ou os que restam vivos, falando hoje como no passado. E essa linha direta, que liga a campanha de 1989 a 2014, é hoje um novelo. 

Uma militante acreana chamada Marina Silva, em campanha para Lula, menos de um ano depois da morte de Chico Mendes.

Uma militante acreana chamada Marina Silva, em campanha para Lula, menos de um ano depois da morte de Chico Mendes.

25 anos depois somos um país muito diferente. Mais complexo, rico e contraditório. Mais cínico, informado, histérico e articulado. Mas, 25 anos depois, ainda somos o mesmo país. Que entra em um estado instável, quase alucinatório na hora de discutir e decidir votos. 

Ecos televisivos de 25 anos, constrangedores para candidatos, âncoras e eleitores. Emergidos pela rede. E que me deram um ânimo novo. Senão para defender meus votos com plena convicção, para ligar a TV todo dia depois do Jornal Nacional e ver o horário gratuito. Não para decidir meu voto, exatamente. Mas para saber que, se tudo der certo, completando 61 de idade, revê-lo nostálgico daqui 25 anos.

Plim. Plim.

LULA LÁ - Caetano, Chico, Gil. O tucaníssimo Mario Covas apoiando o petista no segundo turno. Antônio Fagundes recitando Brecht, alertando para a vilania do analfabeto político. Comícios épicos de 50 mil pessoas. Um sem número de artistas globais entoando emocionados o jingle dos jingles. Aí sim, às lágrimas, nostálgicos e puros de espírito.
Eis os tempos que não voltam mais.

REFLITAMOS, CANDIDATOS - Leonal Brizola encerrando sua participação no primeiro turno. Convocando os demais candidatos do campo democrático, Covas, Freire, Ulisses, à reflexão e à união contra a possível volta da direita ao poder. Insinua, inclusive, voto útil contra Lula para evitar uma vitória de Collor no segundo turno. 

SEM ESQUERDA, SEM DIREITA. SÓ ME ATACAM - Guilherme Afif Domingos, que chegou ao segundo lugar em breve sopro nas pesquisas, diz que busca uma nova política. Juntos, garantia, chegaríamos lá. Fé no Brasil. 
Hoje é vice-governador de SP, mas não concorre à reeleição. Ao lado de Alckmin, em 2014, está Márcio França do PSB.

 

 

DIRETO DO BAÚ - De patrão a presidente. Era o que sonhou por poucos dias Sílvio Santos. Entrou tarde na corrida. Despontou como primeiríssimo. Sem nome na cédula, arriscou tudo no carisma e na sua capacidade de explicar qualquer coisa para o povão. Até como em votar num tal de Corrêia que, na verdade, era ele, Sílvio. Foi impugnado pelo TSE por ter perdido o prazo. Hoje, ele jura, que deu graças a Deus. Nós também.

O FUNDO DO POÇO - É ver pra crer. No último dia de camapanha, Collor exibe uma entrevista com uma ex-namorada de Lula, em que ela chega a acusar o petista de ter pedido para ela fazer um aborto. Diz que dessa relação nasceu Lurian, uma filha fora do casamento. Talvez o ponto mais baixo da já subterrâneo rol de recursos que Collor usou para vencer de Lula. Hoje ambos são aliados. Passou, passou.

 

O POÇO NÃO TEM FUNDO - A famosa edição do debate final entre Collor e Lula dias antes da eleição. Empatados, é quase consenso que essa edição do jornal nacional pesou na balança eleitoral. Claramente favorecendo Collor, a peça termina com um comentário de Alexandre Garcia (ele mesmo ex-porta voz do ditador Figueiredo) exaltando o papel da Globo na construção da democracia. Voilá!

BAMBAS E BANANAS NANICOS - Formidável pout-pourri dos candidatos minoritários das eleições. De oportunistas anônimos a grandes figuras - ainda importantes na política nacional - na lanterna das pesquisas. Tipo hoje. 

 

 

 

 

E PARA ENCERRAR... 

A BELA RESSACA - Roda Viva histórico para "celebrar" o impeachment de Collor em 1992. Cadeira vazia, apenas com a faixa presidencial. Na roda, Millôr Fernandes, Vincentinho, Miguel Reale Júnior, Lygia Fagundes Telles, Ricardo Semler e um jovem Lindbergh Farias... vai vendo.
Obrigatório.