ERAM DE AQUARIUS

 Largo do Paissandu, 16hs. Cidadão caminha. Ao fundo, nuvem de gás lacrimogêneo.

Largo do Paissandu, 16hs. Cidadão caminha. Ao fundo, nuvem de gás lacrimogêneo.

Não escutei estouro de bomba, nem vi qualquer neblina tóxica. Mas senti o odor inconfundível aos que frequentaram manifestações nos últimos anos. O buquê peculiar da ortoclorobenzilidenemalononitrila,  ou gás CS. O popularíssimo Gás Lacrimogêneo.

E foi assim, com os olhos começando a arder, que abri o portão do prédio onde fica o Estúdio Fluxo, na Rua Capitão Salomão, a suave ladeira que liga o Largo do Paissandu ao Vale do Anhangabaú. Aí sim, girando a chave, comecei a ouvir as bombas ao longe. 

O comércio fechando, a PM em prontidão fechando rua. As pessoas, às centenas, correndo para não sabiam onde. Mais gás. Agora sim, em tênue névoa, entrando pelas janelas e sufocando, nauseando quem estava no prédio. 

 Cap. Salomão. Gás e Fuleco. Vai, Brasil!

Cap. Salomão. Gás e Fuleco. Vai, Brasil!

Era a ação da Tropa de Choque que tentava desocupar um edifício na Av. São João. E, a esse ponto, abusava das balas de borracha, das bombas de efeito moral e do gás para "dispersar" os inconformados que resistiam. Ou recusando-se a deixar o prédio. Ou atacando a PM com pedras. Ou, em casos isolados, tentando arrombar lojas. Quando o som das bombas piora. 

Uma, duas, meia dúzia de pessoas (?) colocam fogo em ônibus ao lado do Teatro Municipal. 

Abre-se a porta do inferno.

Três helicópteros. Tiros de borracha, bombas de gás CS a esmo pelo povoadíssimo centro de São Paulo. Tudo para que se mantenha... a ordem.

E que cumpra-se uma ordem de reintegração de posse.  De um edifício abandonado há 10 anos. Onde, um dia, foi o Hotel Aquarius. E onde, há seis meses, moravam 200 famílias sem condições de pagar aluguel. 

 Cidadão, voluntariamente, ajuda o Choque a esticar a fita que isolou a S. João, enquanto caminhões e viaturas desalojavam 200 famílias.

Cidadão, voluntariamente, ajuda o Choque a esticar a fita que isolou a S. João, enquanto caminhões e viaturas desalojavam 200 famílias.

Quando tentei me aproximar do local do despejo, a uns 300 metros do Estúdio Fluxo, a São João estava bloqueada pelo Choque. Apenas viaturas e caminhões que retiravam os pertences dos despejados eram autorizados a passar. Não era possível chegar perto, fotografar, conversar com a população despejada. Apenas escutar os que, testemunhando de longe, preferiam enturmar com os PMs e chamar os ocupantes de vagabundos. 

Carros-pipa, limpeza urbana dando conta do lixo, das manchas de bombas pelo asfalto. Parecia que a barbárie havia ficado pela manhã. E a situação, que seguia deprimente, parecia "controlada". Volto ao Estúdio. Quando, às 16hs, som de bombas e o odor de gás voltam a tomar a sala.

Desço com minha câmera. Menos de 50 pessoas, a mais de 200 metros da linha do choque, observam as tropas. Centenas circulam pelas calçadas. Quando três rapazes, mais exaltados, carregam sacos de lixo e colocam no asfalto. Em uma Av. S. João ainda bloqueada, uns 20 metros da calçada. Um deles ergue o dedo do meio aos policiais distantes.

Pronto.

Mais de 10 cartuchos de gás são disparados no meio da rua. Crianças, idosos, trabalhadores, apartamentos, lojas, motoristas... todos envolvidos pela fumaça cancerígena, abortiva, altamente tóxica do gás CS. Bombas de efeito moral. Balas de borracha disparadas aleatoriamente por policiais ao longe. O Choque avança. E atira mais gás agora na Cap. Salomão, onde não havia nenhum. Repito, nenhum distúrbio. Botequins tomados de gás. Um hotel popular tomado de gás na portaria. 


Subi de volto para lavar meu rosto ardendo de química. Baixar fotos. E, enquanto escrevia esse texto, escutei mais três levas de bombas. Senti novamente o gás entrar aqui no meu escritório, no terceiro andar de um prédio há centenas de metros do epicentro do... confronto?

Que confronto? Não há mais confronto desde a manhã. Mas não é isso que você vai escutar no Jornal Nacional...

Você vai escutar a reprodução inercial da mídia que, presente ou não, vive em um aquário. E fala em confronto. Em baderneiros. Em três gatos pingados que, com um dedo do meio em riste, colocaram três sacos de lixo no asfalto. 

Que não vai questionar a reprodução inercial do modus operandi de uma polícia feroz e irracional. Que vive também em um aquário. Incapaz de enxergar seres humanos à frente de seus escudos. Nem a abjeta reprodução inercial de um governo que, de seu aquário dos Bandeirantes, não apenas legitima e comanda as tropas. Mas tem nesse tipo de ação uma plataforma eleitoral.

Que ganha votos em cima de uma população que também vive, ela também, como que em um aquário em plena falta d'água. Em estado de inércia, restrito. Em uma perversa desconexão. Que, resignada, não acorda nem respirando gás lacrimogêneo. Tamanha a falta de empatia, tamanho o preconceito que é capaz de transformar 200 famílias pobres, sem ter onde morar, em vândalos. Vagabundos. Em gente que "confrontou" a ordem. 

Uma inércia que transformou a barbárie em normalidade. A mesma que, ao que tudo indica, vai nos afogar com mais 4 anos de Geraldo Alckmin. 
 

Glub, glub!