Sociedade da informação (3)

Escritores brasileiros abrem o voto para o Fluxo

reportagem Ronaldo Bressane • arte DW RIbatski

Acima: Vanessa Barbara, André Sant'Anna, Elvira Vigna, Bruno Azevêdo; abaixo, Joca Reiners Terron, Raimundo Carrero, Carlos Henrique Schroeder

Acima: Vanessa Barbara, André Sant'Anna, Elvira Vigna, Bruno Azevêdo; abaixo, Joca Reiners Terron, Raimundo Carrero, Carlos Henrique Schroeder

Prosseguindo nossa saga em busca das opiniões sobre política dos escritores brasileiros contemporâneos (aqui está a primeira parte, e aqui está a segunda), pedimos que mais sete reconhecidos escribas (e aqui estão suas fichas) nos abrissem seu voto e falassem sobre seus ideais e ideias.

Leitores que vão além do pensamento binário e do Fla-Flu praticado por PT X PSDB (jogo embolado agora por Marina Silva), e que apreciam histórias e opiniões com contradições e nuances, sejam bem-vindos ao nosso terceiro Fluxo de Consciência. 

Boas minhocas nas cabeças de todos.

1. Em 2013 o Brasil saiu do armário.

Pelo menos politicamente. Talvez motivados pelas jornadas de junho, mesmo aqueles mais arredios à ação ou reflexão política soltaram seus demônios. Incluindo os escritores.

Há desde os cotidianamente indignados, que xingam muito nas redes sociais (você sabe quem), os que usam o assunto como matéria-prima ficcional (Paulo Scott no romance Habitante Irreal) quanto os que usam palcos da literatura para tocar em feridas abertas (Luiz Ruffato na Feira de Frankfurt) e até os que batem boca direto com os políticos (como no recente telecatch entre JP Cuenca x Eduardo Paes, na GloboNews), e mesmo os que, por conta de um mal-entendido, ocupam a tribuna lascando a plataforma deste ou daquele candidato (Milton Hatoum indignado com o recuo de Marina Silva na questão LGBT).

O belo filme O Primeiro Homem, que (também) trata da maneira como Albert Camus lidava com a política na Argélia e na França — e do quanto sofreu para sustentar suas posições —, faz pensar em quão distantes nós escritores brasileiros estamos do modelo de atuação do autor d'O Estrangeiro. Em 2014, o intelectual talvez tenha perdido sua relevância no palco político.

Sem mais delongas: qual é a sua?

Elvira Vigna não sobe em palanques

Elvira Vigna não sobe em palanques

ELVIRA VIGNA          Não gosto de atuações performáticas. Nada contra quem tem. Considero minhas atuações políticas sem microfone. Adianto que gravitam em torno de cuidados no uso do dinheiro público nos eventos literários em que sou convidada; ou de exercer meu direito de crítica a políticas de incentivo cultural que enfocam indivíduos mais do que infraestruturas.

RAIMUNDO CARRERO     Embora acredite que a literatura é terreno da estética, da arte, do imensamente sofisticado, penso que o artista não pode ficar longe da poeira das ruas. Deve sujar as mãos de graxa, de suor, de agonia. O discurso político não precisa ser panfletário.

JOCA  REINERS TERRON     Não vejo mais sentido na direita nem na esquerda, mesmo porque essas categorias se conformaram na ambidestra, caracterizada pelo pensamento único e sinistro. E quando me refiro a pensamento aqui note que estou sendo generoso com nossos políticos. Sou pela anarquia luddista.

VANESSA BARBARA     Estou mais para George Orwell, que foi pra guerra e quase tomou um tiro. Aí depois ficou tentando publicar seus escritos jornalísticos e ninguém queria: estavam politizados demais... Os escritores que se posicionam politicamente são hoje minoria, e não são bem vistos por ninguém. A maioria dos escritores se preocupa sobretudo em manter uma “imagem pública” e não desagradar a ninguém, não perder nenhum benefício, enfim.

CARLOS HENRIQUE SCHROEDER     Todo ato é político. Dentre as inúmeras definições da palavra, temos essa: uma arte de negociação para compatibilizar interesses. Todos negociam, de alguma forma. Vejo muita hipocrisia no meio cultural, muita gente bancando o independente em público e pedindo arrego no particular. Sou fiel aos meus interesses, e às minhas convicções, e não a um grupo, panelinha, partido ou seja lá o que for. Sou schroedista.

BRUNO AZEVÊDO  Meu trabalho é fruto de inquietações e azares políticos. Uma forma de falar do lugar onde moro enuanto o lugar da mais geral e naturalizada barbárie. É nessa falta total de "civilidade" que o lugar é fundado e é isso que o lugar cultiva desde então, a nata do lixo, o lixo da aldeia, como diria o Ednardo. Mas escritores não têm lugar privilegiado na arena política, porque produzir ficção é tão legítimo como qualquer outro ofício pra atuação política.

ANDRÉ SANT'ANNA     Sempre fui muito encantado pelo pensamento do Darcy Ribeiro e do Glauber Rocha sobre o Brasil. Fui adolescente de esquerda no final da ditadura, nas aberturas. E pensava mesmo que do Brasil nasceria a nova política – a tal da terceira via. Tem um artigo do Glauber Rocha, A Revolução É uma Eztetyka, que foi um guia político para mim. O Brasil seria um país revolucionário por ter uma eztétyka revolucionária. A miscigenação, a improvisação, o meio ambiente espetacular. O grande defeito do governo Lula foi o fato de ter-se criado uma impressão, uma mentalidade de que, agora sim, o Brasil se tornou um país do caralho. E o que se vê na prática é uma pequena ascensão da classe baixa para a classe baixa alta. Ex-pobres com dinheiro e cartão de crédito no bolso e nenhuma ideia na cabeça. Um proletariado sem consciência, incapaz de formular qualquer pensamento político, com ideias da idade média, pena de morte, homens de bem, a culpa é do direitos humanos etc. O Brasil do Glauber e do Darcy Ribeiro acabou não rolando e há um bom tempo estou bastante irritado com o triunfo da ignorância, da burrice e da mediocridade. Passei a alterar um estado depressivo de “foda-se”, não vai ter jeito mesmo, com uma irritação que me perturba o sono e me bota para fazer discursos na frente da televisão, na hora do Jornal Nacional, enchendo o saco da esposa e da família em geral. Com a movimentação do ano passado, cheguei a me animar, a achar que, pô, tem um monte de gente percebendo as mesmas coisas. Fiquei muito entusiasmado com a Mídia NINJA, saí às ruas etc. Mas creio que, como sempre, os idiotas estão tomando conta de tudo outra vez. Na luta de classes, que é real, sou fã do Karl Marx, não consigo me alinhar nem com a burguesia imbecil, nem com o proletariado imbecil. Meu livro O Brasil É Bom fala muito de política brasileira (num sentido mais amplo, além de partidos ou eleições). O Brasil não é bom, o Brasil continua com os defeitos dos países subdesenvolvidos e agora adquiriu também os defeitos do mundo capitalista. E a democracia é um fracasso já que todas as maiorias são sempre idiotas neste país medieval.

2. A arena pública deveria ser mais ocupada por escritores?

Joca é um anarquista luddista

Joca é um anarquista luddista

JOCA     Qualquer palhaço pode se candidatar no Brasil, por que não um escritor? Não tem mais essa de escritor ser diferente. Aqui é a terra da Thalita Rebouças, não do Albert Camus. Quanto a participar do debate público, não creio que tenha a ver com predisposição classista, e sim de temperamento. Ou de estômago, vai saber.

ANDRÉ     Sim. Um parlamento ideal deve conter representantes de todos os setores da sociedade, inclusive intelectuais. Aliás, faz muita falta ao Congresso Brasileiro representantes intelectuais.

CARRERO   Se o artista acredita que precisa de voz ativa, deve procurar a tribuna adequada. Mas o trabalho do artista está no campo da arte, na sua própria obra; mas, se ele não acredita nela, que se arme de mandatos e gestões.

VANESSA      Não seria tão categórica. Nunca entraria nessa área: gosto muito de usar pijamas.

BRUNO         A civilização do espetáculo, do Mario Vargas Llosa, é um exemplo bom de como um escritor (que já foi candidato a presidente) une seu prestígio e articulação a uma ideia política cu, pedindo, no fim das contas, que se reposicione o poder de decisão do mundo a intelectuais, por alguma magia do destino, iguais a ele. O ofício de escritor não é garantia da posição política do escritor, tem gente escrevendo e pensando de tudo. Mas escritores têm nas mãos uma arma poderosa no jogo político, seja pra promover sua posição, ou usando sua posição pralgum lugar do tabuleiro, como a gente viu na eleição do Lula com toda aquela patifaria.

3. Tem um credo político? É de esquerda, direita, tico-tico no fubá ou essas categorias são irrelevantes e datadas?

Raimundo é pela tomada de posições

Raimundo é pela tomada de posições

CARRERO     Sempre me considerei um homem de esquerda; pelo meu pensamento, minha ação, meu voto. Mas minha obra trabalha com metáforas, sutilezas, esquemas elaborados, afinal este é o caminho da arte. Que é eterno. A grande obra literária que examina e defende a liberdade feminina é, sem dúvida, Madame Bovary, de Flaubert, e, no entanto, é um romance elaboradíssimo, um verdadeiro monumento artístico. Mas quando falo em esquerda, na falo em credo político, falo nas coisas essenciais do ser. O Estrangeiro é essencialmente uma obra política.

JOCA  Não. Adquiri consciência política no período da abertura, quando cheguei à adolescência. A partir daí sempre me entendi como de esquerda, embora essa convicção tenha se dliluído na medida em que o PT se aferrou ao poder e perdeu a noção. Bota aí que sou "órfão".

BRUNO         Participar do jogo político como ele se mostra exige do sujeito algum tipo de disfunção moral, e a única forma de ação política legítima é aquela que questionar a coisa de modo geral, ou de forma pontual, violentamente. Política partidária é um engodo voltado pra própria reprodução, e o que se apresenta como mudança geralmente não passa de outra forma do mesmo paradigma, daí que não me associo a nenhum deles.

ANDRÉ     Os conceitos de direita e esquerda do século passado não correspondem mais à realidade. Está na hora de acontecer uma terceira via relevante, com um pensamento político mais moderno, que abranja outros aspectos da vida humana além do dinheiro.

ELVIRA     Sou a favor de um estado inclusivo. Acho essa sua função, e nenhuma outra.

SCHROEDER     No Brasil essa categorização não cola mais, pois vejo partidos se dizem de esquerda emparedando os índios e ambientalistas, uma vergonha. Tenho votado nos verdes, pois banqueiros, lobbistas e industriais já têm partidos e representantes. Verdes são a minha utopia, mas sempre fui mais à esquerda, sou esquerda-gorgonzola, pois não tenho dinheiro para o caviar.

VANESSA      Sou da esquerda festiva, só que não frequento nenhuma festa.

4. Votou em quem nas últimas eleições para presidente? Fez campanha abertamente? É favorável ou contra isso?

Bruno não confia em políticos

Bruno não confia em políticos

BRUNO     Sempre votei nulo e não vou mudar. Se o cara chegou ao ponto de se candidatar, tem um problema grave. Sou contra. A política é tão esculhambada que o horário eleitoral é mais engraçado que todo o humor que se produz no país.

JOCA     Dilma Rousseff. Que é "fazer campanha"? Conversar sobre propostas no dia a dia com amigos, colegas, vizinhos? Discutir com taxista malufista, esse tipo de coisa? Isso eu faço, porém não em redes sociais, onde o índice de taxistas malufistas e psicopatia é elevado e insalubre. Mas sou favorável, claro.

VANESSA     Votei no Plínio. Não fiz campanha, mas não tenho nada contra quem faz.

ELVIRA     Dilma. Não sou de microfone, mas nada contra quem é.

ANDRÉ     Não votei. Quase nunca voto, pois estou sempre longe do meu domicílio eleitoral. Teria votado na Marina, no primeiro turno, e na Dilma, no segundo. Sou favorável às eleições diretas para presidente. Dificilmente faria uma campanha aberta no atual panorama eleitoral brasileiro. Mas não vejo nada de mal em escritores ou artistas que apoiam abertamente algum candidato.

SCHROEDER     Votei na Marina Silva na última eleição presidencial, quando foi candidata pelo Partido Verde, e tinha uma plataforma alinhada com a proteção ambiental e com os direitos civis. Mas não fiz campanha. No segundo turno fui de Dilma, pois não é da minha índole votar no 45.

CARRERO     Votei em Dilma, mesmo sem condições físicas, por causa do AVC. Sempre que posso faço campanhas. Como fiz para Miguel Arraes e Eduardo Campos, este para prefeito do Recife.

5. Defende — ou milita por — alguma causa específica? 

A causa de Schroeder é a ecologia 

A causa de Schroeder é a ecologia 

SCHROEDER          A questão dos transgênicos me enfurece, e afeta a todos diretamente: eles estão em toda parte.  A Monsanto parece coisa de livro do J. G. Ballard, é incrível o que essa empresa faz para conseguir vender suas sementes. A Monsanto é meu monstro particular, brinco de atirar dardos em sua logomarca.

BRUNO     Defendo e milito em diversas causas, e aí rola um imbróglio foda. Toda causa que se abraça constrange uma outra que talvez, por alguma lógica, você também poderia abraçar. O nascimento da Isabel me abriu mil olhos pro feminismo, por exemplo, e a causa afetiva no geral é importante, assim como tudo que vem com a lógica brutal do capital e do mercado (o carro, a obsolescência programada e por aí vai). Ter uma editora independente é uma ação política forte, e aqui é preciso contexto: no Maranhão só se publica através de secretarias de cultura, e essas repartições aprisionam a produção local. Tenho os dois pés atrás com leis de incentivo, e boicoto grana pública pra produção de meus livros (em poucas palavras, as leis servem pra deixar gente rica mais rica e todo material sai com a deferência/selo do Estado). No começo dos anos 2000 fiquei com dois livros retidos numa dessas secretarias e mandei o secretário de cultura tomar no cu num evento no meio de um teatro, depois de publicar uma carta em jornais jogando merda no ventilador. Isso fez com que saísse a grana retida de muita gente lá, e colocou a secretaria em cheque.

ELVIRA     Me toca a exclusão feminina aos direitos civis e aos direitos humanos mais básicos.

ANDRÉ     O equilíbrio sociopolítico está na harmonia entre “liberdades individuais” e “direitos e deveres coletivos”. O que faço com a minha vida é problema meu – sou a favor da liberação das drogas, da liberdade sexual e de costumes, do topless, da defesa do meio ambiente, do respeito às leis de trânsito, contra a pena de morte, contra a diminuição da idade penal, contra qualquer tipo de censura, contra a violência policial

CARRERO   Já temos drogas demais legalizadas. Até mesmo o álcool. Quanto ao aborto, sou contra, porque  transcende aos aspectos materiais e imediatos. Está em jogo uma vida humana. A mulher tem todo o direito a usar o corpo como deseja, mas o feto não tem direito a nada.

JOCA     Não milito, mas me interesso por política ambiental e de aproveitamento e recuperação do espaço urbano, como criação de parques e ocupação de prédios abandonados. Também tenho lá minhas ideias a respeito da pedagogia da leitura e de verbas para educação. Sou bastante convicto de que uma política por melhorias ao alcance de onde se vive, no seu prédio, depois no seu bairro, pode ser eficaz e deve ser praticada. E não tenho saco. Pela proibição do glúten e a liberação dos glúteos.

VANESSA     Pelo direito da livre manifestação. O que é algo ridículo e paradoxal... Como aquele cartaz clássico, “I cannot believe I’m still protesting this shit”.

6. Tem ou teve militância política em algum partido ou causa? Já trabalhou no governo ou no Estado ou em alguma campanha política? Gostou?

André conhece de perto as campanhas eleitorais

André conhece de perto as campanhas eleitorais

ANDRÉ     Trabalho em campanhas eleitorais. Mas é uma coisa profissional, sem envolvimento ideológico. Recusaria fazer campanha para ditadores, para governos que defendem censura, tortura e coisas do tipo. Trabalho para qualquer um. Gosto. Por mais que tenha uma ou outra preferência política, na hora do trabalho consigo abstrair e a coisa se torna um jogo estratégico. E com as campanhas que fiz aprendi muito sobre como funcionam a política brasileira.

BRUNO     Nunca trabalhei em campanha de governo e não faria nenhuma. É uma tentação bater no Sarney, mas o que se apresenta contra é geralmente uma cria rebelada dele

CARRERO     Não gosto de partidos para não reduzir as minhas crenças. Sempre estive ao lado dos Arraes e dos Campos. Continuo o mesmo.

SCHROEDER     Meu avô foi prefeito duas vezes, em uma pequena cidade, meu pai já foi candidato a vice-prefeito, nessa mesma cidade. Cresci em meio a campanhas políticas, vi o futuro de pessoas sendo decidido como se fosse num tabuleiro de xadrez. Tudo isso fez com que eu me afastasse da vida partidária, mas nunca da política. E como eles eram “mais de direita”, sempre fui “mais de esquerda”. Nos anos 1990 fui filiado ao PT, mas sai em 2000.

7. Política e literatura se misturam?

ANDRÉ     Opção do escritor. Existem ótimos escritores totalmente alienados politicamente. Mas política é tema importante, cabe perfeitamente na literatura. E você pode ser um escritor militante nas ruas e apolítico literariamente. Ou até mesmo escrever sobre política e jamais falar do assunto fora dos livros.

ELVIRA     O fazer literário contemporâneo é necessariamente político. Pois depende de um outro para seguir seu processo de significação contínuo.

JOCA     Não se misturam. Espaço literário é a cabeça do leitor e jornalismo não é literatura. Rua tem cartaz e sinal de trânsito, não literatura. Literatura é questão pessoal e intransferível.

SCHROEDER     O ato de escrever é político, o escritor está defendendo alguma ideia, alguma imagem, não dissocio vida e literatura.

BRUNO     Política e literatura se misturam como tudo em todos os lugares, a briga rola em diversas frontes. O trabalho da Laerte, como artista, pela causa dos transgêneros, é  exemplo. Não só o trabalho vazou do seu nicho como a discussão tomou outros ares (você se vê obrigado a prestar atenção em algo quando alguém que admira há anos entra de cabeça nela). A literatura pode mudar as coisas, nem que seja mudando quem tem o pau na mão pra mudar, mas não pode ser vista como instrumento, ou instrumentalizada: aí fode tudo e o escritor vira um intelectual orgânico de merda.

8. O pensamento político do escritor ecoa na formação da opinião da sociedade?

Vanessa cobra posições dos escritores

Vanessa cobra posições dos escritores

VANESSA     A literatura não tem que obrigatoriamente mudar nada nem ter utilidade específica. Mas acho que o escritor deveria se posicionar. Ao decidir ficar quieto, está se omitindo e tomando uma posição contrária.

ANDRÉ     No Brasil o público relevante nas urnas está longe das livrarias. Se lê pouco no Brasil, mesmo nas elites. Mas sempre tem alguém para assimilar uma ideia política de um livro e mudar um pouquinho o que está em volta. Um livro muda pouco a sociedade.

ELVIRA     Não, mas anuncia a mudança.

JOCA     Não tem mais ressonância, e teve apenas quando o dito além de escritor também era político. As mudanças causadas pela literatura são individuais, subjetivas e bem discretas se comparadas às grandes mudanças que a política exige. Mas acredito na importância dessas pequenas mudanças, creio que sempre serão positivas porque operam num campo sensível.

SCHROEDER     Menos do que há alguns anos, quando o livro era uma “mídia” com projeção no cenário mundial. O compromisso do escritor é com seu projeto de escrita: se ele quer ser engajado ou não é uma decisão pessoal. Mas há debates interessantes levantados por escritores contemporâneos, como o das redes sociais, pelo David Eggers, em O Círculo. Ainda é possível fazer algum barulho.

CARRERO     A literatura muda tudo, sempre mudou. Ingenuidade imensa não acreditar na força revolucionária da literatura. Senão, por que os ditadores queimam tantos livros?

9. Que acha da democracia direta? Ação direta? Desobediência civil?

VANESSA    Estava lendo esses dias o livro do François Dupuis-Déri sobre os black blocs e acho que ele acerta em várias coisas. É preciso dar espaço para diferentes formas de protestar, ainda que pessoalmente nós não concordemos com elas ou não as pratiquemos, ou mesmo que as achemos contraprodutivas. É preciso levar a sério e ouvir as vozes dissonantes, e não dispensá-las de antemão como sendo vazias ou irracionais. Não tenho resposta para nada, mas gosto de ver gente jovem saindo para as ruas – prefiro mil vezes um anarquista fazendo um cordão na manifestação a um acomodado de sofá que diz que “o protesto deve ser feito nas urnas”. Importante não cair nesse discurso reacionário que pede repressão para quem sai para se manifestar, como se fossem todos criminosos e vagabundos.

ANDRÉ     A democracia tem esse defeito: seja num país, numa família ou num pequeno grupo social, a maioria é sempre composta por idiotas. Então, as causas dos idiotas sempre vencem. Mas não conheço coisa melhor. A coisa melhora com as ações diretas e com a desobediência civil. A desobediência civil é sempre pertinente, ótima forma de combate, uma das poucas maneiras de se enfrentar, com sucesso, as decisões da maioria idiota. Leis idiotas, que atinjam as liberdades individuais, devem ser desrespeitadas.

JOCA     Desobediência civil sempre. Ação direta quando necessária e na medida necessária. Democracia direta funciona razoavelmente bem no Uruguai, mas verifique o tamanho da população do Uruguai. No caso do Brasil é complicado, e uma democracia direta digital, por exemplo, só deixaria de ser utópica se o analfabetismo fosse erradicado, inclua-se aí o analfabetismo secundário que tem índices escandalosos

SCHROEDER     O livro Leviatã do Paul Auster é uma reflexão interessante sobre isso: um escritor segue sua carreira literária e outro se torna uma espécie de terrorista, cada qual com a sua maneira de mudar ou tentar mudar o mundo.  O caminho do meio me parece interessante.

BRUNO     Só convém a desobediência civil geral, a mais difícil de ser encachapada num discurso fechado . Não se tem como saber da turba, porque nem ela mesma sabe, porque ela não existe, só age.

ELVIRA     Acho que está a um passo da manipulação de massas de um fascismo sempre à espreita. Políticos são necessários.

CARRERO   Quando a conversa não convence, a desobediência civil resolve. Sem violência.

Literatura é um ninho de cobrinhas

Literatura é um ninho de cobrinhas

10. Abaixo-assinados recheados de escritores servem para algo?

BRUNO     Não sei se abaixo-assinados com nomes de escritores enquanto classe isolada servem pra algo, porque os escritores no Brasil não são amplamente reconhecidos como referência (e era disso que o Vargas Llosa reclamava no livro dele). O escritor não me parece uma figura pública relevante. Nem nossas obras conseguem ser populares. A gente tem um arremedo de indústria que vive de dinheiro público e parte dos escritores esnoba quem consegue vender literatura como se isso fosse um pecado. O abaixo-assinado de Frankfurt causou desconforto em muita gente (gosto romanticamente de acreditar) pelo momento chave, mas vou na explicação do próprio JP Cuenca, que "a mobilização tem que vir de todos os lados: das ruas, dos escritores, de todo mundo que tem voz".

ELVIRA     Fujo disso como o diabo da cruz. Já fui 'incluída' num desses sem sequer ter lido o texto que supostamente assinava.

SCHROEDER     Dão mídia, geram debates, pautas, mas na prática não resultam em muita coisa.

ANDRÉ     Quando os abaixo-assinados eram feitos com um papel na sua frente, onde você lê na hora a causa a ser defendida ou combatida, assinava aquilo com que concordava. Mas com esses que vêm pela internet, sempre me atrapalho e nunca sei se o negócio de fato chega ao destino. E vou dizer uma coisa: nenhuma das causas que assinei embaixo venceram.

11. Em quem vota (presidente, governador, senador, deputados federal e estadual)?

JOCA     Dilma, pois confio menos nos outros candidatos. O resto ainda estou estudando, porém minha escolha vai se pautar pela história e pelas propostas do candidato, não por fidelidade partidária.

CARRERO   Marina, em quem acredito plenamente que colocará em ação o programa de Eduardo.

ELVIRA     Ia de Luciana Genro, pra dar uma força pro PSOL. Em vista da circunstância atual vou de Dilma. Ia de Vladimir Safatle porque gosto dele. Ele desistiu, e estou encalacrada. Deputado federal será o Thiago Aguiar, também PSOL. Estadual ainda não tenho.

ANDRÉ     Não vou votar, estou em Campo Grande. E te juro: desta vez, eu não saberia em quem votar. Toda vez que converso com um petista, fico com vontade votar na Marina. Toda vez que converso com um anti-petista, fico com vontade de votar na Dilma. Meu domicílio eleitoral é o Rio. Para governador, eu iria de Lindberg sem o menor entusiasmo, só porque os outros 3 são muito horrendos. Senador, eu ia de Romário, mas vi que ele votou a favor daquele Código Florestal desmatador e perdi a vontade. Para deputados, não tenho a menor idéia. Sei lá.

SCHROEDER     Em 2014 não votarei na Marina Silva: alguém que recua num quesito importante às vésperas das eleições (como no caso LGBT) não merece crédito. Presidente: Eduardo Jorge, do PV,  ou Luciana Genro, do PSOL.  Não vão se eleger, mas ficarei com a consciência tranquila. Eleições não têm a ver com ganhar ou perder, e sim com cidadania. Governador: Vignatti, do PT, pelo programa de governo dedicado à educação.

VANESSA     Vou justificar o meu voto, não estarei no país.

BRUNO     Meu voto é sempre nulo.

Na semana que vem: o fluxo de consciência de Chacal, Noemi Jaffe, Cadão Volpato, Beatriz Bracher, Fabrício Corsaletti, Luiz Antonio Simas e Carol Bensimon