Sociedade da informação (4)

Escritores brasileiros abrem o voto para o Fluxo

reportagem Ronaldo Bressane • arte DW RIbatski

No alto, Fabrício Corsaletti. Luiz Antonio Simas, Carol Bensimon, Beatriz Bracher; abaixo, Cadão Volpato, Chacal e João Filho

No alto, Fabrício Corsaletti. Luiz Antonio Simas, Carol Bensimon, Beatriz Bracher; abaixo, Cadão Volpato, Chacal e João Filho

O bicho está pegando. Prosseguindo nossa saga em busca das opiniões sobre política dos escritores brasileiros contemporâneos (aqui está a primeira partee aqui está a segunda, e aqui a terceira), pedimos que mais sete reconhecidos escribas (e aqui estão suas fichas) nos abrissem seu voto e falassem sobre seus ideais e ideias. E parece que as opiniões estão ainda mais exaltadas.

Sejam bem-vindos ao nosso quarto Fluxo de Consciência os leitores que apreciam histórias e opiniões com contradições e nuances e vão além do pensamento binário e do Fla-Flu praticado por PT X PSDB (jogo embolado agora por Marina Silva... já vai, Aécio? Po, toma mais uma cerveja!).

Boas minhocas nas cabeças de todos.

1. Em 2013 o Brasil saiu do armário.

Pelo menos politicamente. Talvez motivados pelas jornadas de junho, mesmo aqueles mais arredios à ação ou reflexão política soltaram seus demônios. Incluindo os escritores.

Há desde os cotidianamente indignados, que xingam muito nas redes sociais (você sabe quem), os que usam o assunto como matéria-prima ficcional (Paulo Scott no romance Habitante Irreal) quanto os que usam palcos da literatura para tocar em feridas abertas (Luiz Ruffato na Feira de Frankfurt) e até os que batem boca direto com os políticos (como no recente telecatch entre JP Cuenca x Eduardo Paes, na GloboNews), e mesmo os que, por conta de um mal-entendido, ocupam a tribuna lascando a plataforma deste ou daquele candidato (Milton Hatoum indignado com o recuo de Marina Silva na questão LGBT).

O belo filme O Primeiro Homem, que (também) trata da maneira como Albert Camus lidava com a política na Argélia e na França — e do quanto sofreu para sustentar suas posições —, faz pensar em quão distantes nós escritores brasileiros estamos do modelo de atuação do autor d'O Estrangeiro. Em 2014, o intelectual talvez tenha perdido sua relevância no palco político.

Sem mais delongas: qual é a sua?

Beatriz marinou geral  

Beatriz marinou geral  

BEATRIZ BRACHER      As muitas formas de opressão, e seu par, a humilhação, nas quais nos batemos pela rua, em casa e dentro de nós mesmos o tempo todo, segundo a segundo, me afetam além do que sou capaz de entender, e sei que o horror que isso me inspira está inevitavelmente presente no que escrevo e nas batalhas, em geral pessoais e privadas, que vou encarando. Opressão do mais forte com o mais fraco, e do mais fraco com o mais forte. Do patrão contra o operário, do operário contra o patrão. Da mesquinharia dos pequenos poderes. Bullyng, fofoca, pequenas sabotagens, pancadaria, estupro, assassinato e morte.

CHACAL     "Maiores são os poderes do povo."

CAROL BENSIMON   Usei camiseta do Che Guevara nas edições porto-alegrenses do Fórum Social Mundial. Depois cresci e entendi que era muito mais complexo do que isso. Nesse meio tempo, o PT se aliou com o que há de pior, e guardei minhas bandeiras vermelhas. Agora estou longe da política partidária. Participei do início das manifestações, depois larguei fora. Leio bastante sobre urbanismo e me envolvo nas questões da cidade. Acho que fazer piquenique numa praça é mais do que coisa de hipster; é um ato político. O mesmo quanto a pegar um ônibus quando você pertence a uma camada social que supostamente deveria andar de carro.

FABRÍCIO CORSALETTI     Como poeta e escritor tenho muita dificuldade para dar forma a conteúdos explicitamente políticos. Já tentei muitas vezes escrever poemas “sociais” e só duas vezes consegui algo publicável: um poeminha sobre a condição das mulheres no Irã, que publiquei em blogs de amigos, e uma “Balada a favor das últimas manifestações”, que escrevi em junho, depois de ter ido àquela manifestação maior, não lembro o dia exato, e publiquei no Facebook. Por outro lado, acredito que todo texto é político, diz coisas sobre o seu tempo etc. Então não penso muito nisso e procuro escrever a partir do meu ponto de vista muito pessoal e pequeno, da melhor maneira possível. Se no que escrevo acontecer alguma sacada sobre o nosso tempo, melhor. Mas esse é um problema mais do leitor do que meu.

LUIZ ANTONIO SIMAS     Faço política quando canto, toco, danço, imolo animais, respeito os mistérios do rio, evoco meus ancestrais na casa de Egun e digo aos arrogantes de plantão que cultuo os deuses que atravessaram o Atlântico nos porões imundos dos tumbeiros para nos civilizar. Escrevo basicamente sobre isso e essa é a minha maneira de fazer política. Sou um simples prosador das encantarias que conheci menino.  

JOÃO FILHO      Um homem não é um bloco, um ser fechado, desse modo, em política sou liberal. Isto é, quanto menos Estado melhor. Estado mínimo sempre.

CADÃO VOLPATO    Como disse um poeta amigo meu: "Sou anarquista de coração/ Outra coisa é que Lênin e Trótski/ Tinham razão”.

2. A arena pública deveria ser mais ocupada por escritores?

Fabrício faz questão de se opor à direita

Fabrício faz questão de se opor à direita

FABRÍCIO     Acho que o mundo da imaginação e o mundo da ação são coisas diferentes, e muita gente se estrepa ao tentar misturá-los.

CHACAL     Sim. Uma intervenção de emergência para fazer uma ligação direta entre o real e os mistérios.

CADÃO      Escritores são pessoas (da espécie solitária). Por que não?

BIA     A pessoa ser escritor não a torna mais ou menos responsável dentro do debate político brasileiro. Claro que por ter mais visibilidade do que pessoas de outras atividades, como sapateiros e fazendeiros, sua opinião pode, eventualmente, e, em geral, erradamente, ser considera mais consistente e inteligente do que o dos sapateiros. Claro que por conta dessa visibilidade, sua voz poderá ter a chance de chamar mais atenção, e por isso nos sentimos, às vezes, covardes por não fazer uso público desse lugar onde nossa literatura nos coloca.

SIMAS      Admito certa desconfiança pessoal em relação ao papel dos escritores no espaço mais formal da política, ao menos de forma direta.

JOÃO     Se arena pública for o de institucionalizar-se num determinado cargo — não; se for o debate de ideias — sim. O escritor, de algum modo, já faz isso ao publicar seus livros

CAROL    Complicado seria algum se eleger, levando em conta nossa baixa popularidade. 

3. Tem um credo político? É de esquerda, direita, tico-tico no fubá ou essas categorias são irrelevantes e datadas?

Chacal luta contra a opressão e a hipocrisia

Chacal luta contra a opressão e a hipocrisia

CHACAL     Social-anarquismo.

FABRÍCIO      Me sinto inclinado para o que ainda chamam de esquerda e faço questão de estar do lado oposto ao que um dia foi chamado de direita. Serei sempre a favor do direito das pessoas se manifestarem e serem diferentes, não quero viver num mundo em que todo mundo pensa igual — esse é meu credo político.

JOÃO    As categorias existem. Sou de direita.

SIMAS      Sou da esquerda relapsa.  O que define o sujeito de esquerda, na minha concepção, é a defesa da centralidade da luta pela justiça social e, nos dias atuais, a defesa contundente das minorias.

CAROL     Sou de esquerda, essas categorias ainda fazem algum sentido. O que não tem feito sentido é o modo esquizofrênico de os partidos políticos encararem as categorias

BIA      Tenho convicções, não sei se de direita ou de esquerda. E são um pouco as mesmas que de todas as pessoas decentes: menos desigualdade de renda; educação pública de melhor qualidade; um judiciário mais simples, rápido e acessível; contra o abuso da violência policial e a favor de mais polícia para defender as pessoas mais pobres, os milhares de crimes cotidianos que nem chegam a ser denunciados. Parece discurso de candidato de qualquer partido político. Talvez os meios para se alcançar objetivos como estes é o que faça a pessoa ser de direita ou de esquerda. Mas em alguns casos eu concordo com as opções apresentadas por correntes mais para a direita, e outra mais para a esquerda. Não me considero em cima do muro, mas tenho muita firmeza na posição “depende”. Acho as generalizações idiotas, pouco inteligentes e nada eficientes, a não ser para se vencer uma discussão.

4. Votou em quem nas últimas eleições para presidente? Fez campanha abertamente? É favorável ou contra isso?

João é do contra

João é do contra

JOÃO       Votei nulo. Não faço campanha. Sou contra isso. 

CADÃO     Votei no Lula e na DilmaJá deu. Não faço campanha, não tenho mais certeza de nada, detesto Fla-Flu, detesto os haters da internet, só não quero ver o Reinaldo Azevedo porta-voz  ou assessor de imprensa de um governo de direita.

CAROL     Votei na Dilma. Não fiz campanha porque sou daquelas que via o PT como “norte moral”, e isso acabou. Sair de bandeira em punho, como fazia aos 18 anos, não faz mais sentido algum. O PT já não é aquele. Não sou contra quem faz campanha por um partido ou candidato, mas a descrença generalizada com a política, somada às novas formas de mobilização, tornaram possível militar por causas específicas fora da esfera dos partidos. Ainda assim, essa atuação é sempre limitada; não pode prescindir de toda a estrutura política.

BIA       Votei na Marina. Não fiz campanha e sou a favor de que, quando temos bastante segurança sobre o candidato em quem iremos votar, quando isso nos mobiliza com força, tenhamos coragem de sair em campo fazendo campanha abertamente.

SIMAS      Votei na Dilma. Não fiz campanha abertamente. Não vejo como se definir uma conduta que seja mais ou menos correta neste caso. Faria campanha aberta se encontrasse uma candidatura capaz de me motivar para isso. 

CHACAL      Dilma. fiz campanha no Facebook. Sou a favor. A política é uma dimensão humana.

FABRÍCIO      Não votei. Estava viajando, justifiquei. Também não fiz campanha. Não sou contra, mas não tenho essa habilidade.

5. Defende — ou milita por — alguma causa específica?

Carol milita por suas causas com veemência

Carol milita por suas causas com veemência

CAROL      Causas que tocam o espaço urbano. Tudo que tem relação com um espaço mais qualificado, amigável, humano, me interessa. Bicicleta, transporte público, preservação do patrimônio histórico, prédios mais baixos, comércio de rua (no lugar de mais e mais shoppings), enfim, uma concepção de cidade em escala humana. Aqui em Porto Alegre, derrubar árvores para alargar vias virou praxe. A administração atual também tem o péssimo hábito de esconder projetos que deveriam ser de conhecimento público (a revitalização da orla e do cais do porto, por exemplo). Na medida do possível, me envolvo com tudo isso. Escrevo sobre esses temas na Zero Hora e por mais de um ano estive à frente de um programa de rádio, junto com Katia Suman e João Marcelo Osório, o Cidade Elétrica. Outras causas: descriminalização da maconha, descriminalização do aborto, criminalização da homofobia, Estado laico de verdade, etc. 

CHACAL      Pela libertação do homem de regimes totalitários e convenções hipócritas.

SIMAS      Sim. A luta pela liberdade de culto e pela dignificação das religiosidades afro-ameríndias do Brasil, contra a intolerância religiosa e em defesa do Estado laico.

BIA      Defendo abertamente a campanha de Marina a presidente. Além disso defendo a descriminalização do aborto e das drogas. O primeiro por uma questão de saúde pública, e o segundo por uma questão de liberdade civil e porque acho que enquanto as drogas não forem descriminalizadas, não acabaremos com o tráfico de drogas, e enquanto houver o tráfico, nossa polícia será corrupta. Infelizmente nenhuma dessas posições é encampada por nenhum dos três candidatos com chance de ganhar.

JOÃO     Se militar for escrever e divulgar certos temas que me são caros, milito pela poesia metafísica. 

FABRÍCIO    Não.

CADÃO     ZZZZZZZZZZZZZZZZ...

6. Tem ou teve militância política em algum partido ou causa? Já trabalhou no governo ou no Estado ou em alguma campanha política? Gostou?

Cadão tem um passado a zelar

Cadão tem um passado a zelar

CADÃO     Fui trotskista, da Libelu. Nunca trabalhei em nenhuma campanha política de governo. Mas, no final dos anos 70, fui de porta em porta no Belenzinho, tentando filiar as pessoas a um partido operário que estava por nascer.

FABRÍCIO      Não.

BIA      Hoje colaboro com a campanha da Marina da forma que me coube, tentando convencer outras pessoas a votarem nela e ajudando na organização de eventos.

SIMAS      Nunca trabalhei em qualquer governo nem tive militância política. 

CAROL      Já fui petista de ir a comício e decorar musiquinha. Não, nunca trabalhei  no governo ou em alguma campanha política.

JOÃO     Não tive militância política propriamente dita. Estudo os pensadores políticos, mas não gosto. Nunca trabalhei em campanha política.

CHACAL     Não.

7. Política e literatura se misturam?

Simas: política é coisa de Exu

Simas: política é coisa de Exu

SIMAS      No meu caso, se misturam na rua. É sobre ela e a partir dela, a rua, que escrevo, escuto histórias e me posiciono politicamente. Registro que, neste caso, falo da rua das encruzilhadas de Exu, o orixá das transformações e das possibilidades em aberto.  

BIA      Sim. Não uma política institucional (quanto a esta, nós temos a opção), mas a política dos nossos pontos de vista em relação à vida em sociedade transparece no que a gente escreve. Digo, assim, da mesma maneira que a literatura do Kafka ou Beckett são políticas, ainda que de modo diverso da literatura de Graciliano RamosThomas Mann e do Tolstói. Mas viver em sociedade é um ato político (pensando bem, viver numa caverna também é), e quem escreve é quem vive.

CAROL      Tanto quanto sexo e literatura, culinária e literatura, arquitetura e literatura, filosofia e literatura. O que não dá pra encarar é literatura panfletária, maniqueísta e com resposta pra tudo. O escritor pode militar quanto quiser e no que quiser, mas obra militante é meio dureza.

FABRÍCIO     Em todo lugar, o tempo todo.

JOÃO     Sempre se misturaram. Mas acredito que literatura é como Millôr Fernandes definiu o jornalismo: é contra. Se não for assim, é chapa branca.

CHACAL     São atividades humanas.

CADÃO       Não gosto de discurso.

8. O pensamento político do escritor ecoa na formação da opinião da sociedade?

SIMAS    Não tenho essa visão utilitarista, ao menos no plano coletivo.  A literatura é capaz de proporcionar grandes transformações no indivíduo que lê e naquele que escreve; o que já me parece de bom tamanho. 

BIA      A boa literatura tem ressonância que demora a se constituir, de longa duração. O pensamento político expresso de forma institucionalizada, defesa de causa, candidatos, pode ter ressonância ampla ou miúda, dependendo do reconhecimento da obra do escritor e da consistência de seus argumentos.

FABRÍCIO     A literatura muda muita coisa, mas individualmente, silenciosamente. Nesse sentido, tem mais a ver com psicanálise do que com ação política.

CAROL      Depende. Se o escritor escreve crônicas no jornal, está em um programa de TV, tem atividades que ultrapassam os limites da literatura, seu pensamento político pode ter alguma influência. Se falamos de romances, contos, poemas, e se isso ressoa na sociedade, hm, não.

JOÃO     Tem. Por pequeno que seja o raio de influência de um escritor, ele não deixa de exercer algum poder. Ou seja, influenciar de algum modo.

CHACAL       Poetas e escritores têm reconhecimento social como homens de pensamento. Nesse tempo-mercado, esse reconhecimento está esgarçado, mas ainda vigora.

CADÃO     A literatura não muda nada. Mas, de alguma forma, ela mostra que outra vida é possível. A literatura feita no Brasil hoje não muda nada. No entanto, um livro como K, do Bernardo Kucinsky, faz pensar: a violência da ditadura foi apoiada por pessoas e comunidades insuspeitas.

Poesia sem pesos nem medidas

Poesia sem pesos nem medidas

9. Que acha da democracia direta? Ação direta? Desobediência civil?

CAROL      Democracia direta: precisamos. Mas também não dá pra cair nessa ideia de que tudo precisa ser resolvido com um maldito plebiscito. Quer perguntar o que a maioria pensa sobre drogas, aborto? Não dá. Senão, fica tudo igual. Consulta popular sobre o que fazer com a área do cais em Porto Alegre? A maioria vai dizer que quer colocar um shopping ali com 5.000 vagas de estacionamento. É difícil esperar bom-senso da maioria. Quanto à desobediência civil, a minha, por mais paradoxal que pareça, é não cair no jogo do não-dá-nada. E agir como fiscal, sempre que possível. Isso quer dizer constranger ao máximo um jovenzinho que está estacionando na vaga do idoso, xingar quem passa no sinal vermelho, escrever no jornal contra o corte de árvores para o aumento de uma via, etc.

CHACAL      Gosto disso. quando a classe política perde a representatividade, a ação direta é a melhor solução. Até que uma reforma política, a partir de uma Constituinte, venha à tona.

JOÃO     Democracia direta seria a melhor opção hoje, mas quase não existe. A ação direta é válida, mas tem que ficar de olho no motivador das causas. Bem como na desobediência civil.

CADÃO      A democracia é para poucos. Radicalizando as perguntas (ou talvez mudando de assunto): acho que os black blocs justificam a violência policial. Deve ter polícia no meio.

FABRÍCIO      Ainda estou pensando no assunto. 

SIMAS      Sou novo demais para morrer e velho para o rock´n roll.

BIA     Há várias formas de democracia direta. Por exemplo, houve agora uma série de audiências públicas para se discutir o Plano Diretor de São Paulo. Não eram instâncias decisórias, mas foi uma forma eficiente dos grupos que foram capazes de se organizar influir no processo. Já os Conselhos Tutelares, órgãos com imensa responsabilidades sobre a vida de crianças e adolescentes — que podem pedir ao Ministério Público a perda de guarda de uma criança, ou não dar prosseguimento a uma denúncia de abuso — são geridos por cinco membros eleitos pela sociedade. E isso acaba sendo manipulado pelos partidos: a comunidade não tem uma organização real para indicar e eleger os candidatos que poderiam ser os mais adequados, do seu ponto de vista. A gente pode pensar que, com o tempo, as pessoas, grupos, comunidades irão se tornar capazes de se organizar e se unir para terem mais influência no seu próprio destino, sem precisar fazer o percurso longo e distante dos vereadores, por exemplo. Se isso acontecer, seria ótimo. Quando isso não acontece, seria mais justo que o governante eleito, ou os vereadores e deputados eleitos, escolhessem esses gestores. Minha opinião é que a democracia direta pode ser boa se for organizada de acordo com as condições de cada lugar e as responsabilidade de cada órgão. Sempre pensando no objetivo de dar mais poder às pessoas sobre às quais estes dirigentes eleitos terão poder. E criar mecanismos que dificultem ao máximo a manipulação de grupos por partidos ou lobby de empresas. Já a desobediência civil é uma maneira legítima de pressão. Muitas vezes, a única possível. Faz parte dessa estratégia sofrer as penas previstas pela lei democraticamente votada. Quando Thoreau é preso por ter se recusado a pagar impostos a um governo escravagista e em guerra, que ele considerava errada, contra o México, ir preso fez parte de sua desobediência civil.

10. Abaixo-assinados recheados de escritores servem para algo?

CHACAL      Depende da causa. para reforma ortográfica, com certeza. Na política, nem tanto. Muitos escritores não fazem conexão entre literatura e política. Isso enfraquece.

SIMAS      Desconfio que não, ainda que os assine quando a causa me parece justa.

CAROL      Me pergunto se algum serve para algo. Não tenho certeza. Na dúvida, assino. Mas não muitos.

FABRÍCIO     No mínimo, servem para expressar a opinião das pessoas que o assinaram.

BIA     O problema dos abaixo-assinados é que você assina um texto e é publicado outro. Depois que isso aconteceu com um texto que eu assinei, nunca mais assinei nenhum outro. Agora, abaixo-assinado é diferente de uma lista de apoio a determinada causa ou pessoa. Essas eu acho uma maneira interessante de se manifestar e tentar influenciar políticos.

JOÃO     Deve-se olhar o motivador da causa.

CADÃO      Só nos países em que a literatura significa alguma coisa.

11. Em quem vota (presidente, governador, senador, deputados federal e estadual)?

CADÃO     Nestas eleições, meu voto é nulo. O voto nulo pode até cair na vala comum dos brancos, mas é um voto como qualquer outro. As pessoas que fazem política neste país merecem um repúdio absoluto, um rotundo não – e as jornadas de junho, na sua essência, apontavam pra isso.

JOÃO     Votarei nulo. Em todos.

FABRÍCIO     Ainda não me decidi. Pra presidente, ou Marina ou Dilma. Baita dúvida.

SIMAS     Jean Wyllys deputado federal e Eliomar Coelho deputado estadual. Não defini os outros votos.

CHACAL     Por enquanto, Dilma, Romário (senador), Lindberg (governador). 

CAROL     Dilma, sem muita paixão, mas vamos nessa. Para governo do Estado, Tarso Genro (PT), mas está difícil; ao que tudo indica, Ana Amélia (PP) deve ganhar essa, e o mínimo que eu imagino a partir daí é uma Secretaria da Cultura se fundindo com a Secretaria de Turismo (isso é sério, pessoal). Para o senado, Olívio Dutra (PT). Para deputado federal e estadual, dois candidatos que já tem uma excelente atuação na câmara de vereadores de Porto Alegre: Pedro Ruas (PSOL) e Fernanda Melchionna (PSOL).

BIA      Voto na Marina para presidente, confio que ela fará uma verdadeira revolução na qualidade da educação. É uma pessoa inteligente, sem simplificações, tem sensibilidade afiada que elabora com honestidade o que ouve e lê. Em governador, ainda não sei. Votei para prefeito no Haddad e não me arrependo, pelo contrário, ele está fazendo um ótimo governo. Mas nessa minha busca de eleitores da Marina que queiram abrir o seu voto, tenho presenciado muito de perto a truculência metodológica do PT, com mentiras e ameaças de corte de verbas e financiamentos para filmes e espetáculos teatrais de quem ousar apoiar abertamente quem não se chamar Dilma. Também recebi respostas iradas, de um desrespeito absurdo pela Marina, que demonstram uma total ausência de autonomia de pensamento, compram exatamente a historinha contada pelo PT a respeito da Marina, são quase piores que as peruas que tem horror ao PT. Sequer se dão conta do preconceito atroz que existe na expressão: “Mas ela é evangélica!”, imagina se alguém falasse: “Mas ela é judia!”. Enfim, não quero votar no Alckmin, no Skaff nem pensar, e resolvi que, a não ser que o candidato seja excepcional, prefiro não votar no PT. Seu método de combater os adversários está envenenando as relações entre as pessoas de bem, e de mal, e de mais ou menos. Deputado federal: Roberto Freire. Deputado estadual: Daniel Annenberg

Semana que vem: o último Fluxo de Consciência, com as ideias e votos de Noemi Jaffe, Xico Sá, Carlos Brito e Mello, Ana Paula Maia, Jaime Prado Gouvêa, Alexandre Soares Silva e Tatiana Salem Levy