Laerte e a política da sutileza

"Tem um modo de ver as coisas que é árido, que é azedo. Que busca a defesa de bandeiras absolutamente legítimas, mas de uma forma em que você exclui todo mundo que não está na sua cartilha. Eu acho isso um perigo."

Na semana em que direitos LGBT tomam o debate eleitoral, e Marina Silva é apontada por muitos como uma representante do conservadorismo evangélico nas urnas, Laerte Coutinho falou ao Fluxo. E buscou abrir outro flanco na conversa. 

Das maiores cartunistas do Brasil, Laerte tornou-se um dos símbolos e das vozes mais atuantes em nome dos direitos da comunidade LGBT no Brasil após vir a público como mulher.

Gay? Trans? Travesti? Crossdresser? Laerte quer escapar dos rótulos que tentam enquadrá-la. Desde os anos 70, quando na militância de esquerda comunista no Brasil, cobravam sua clara definção: era Trotskista, Maoista, Stalinista?

Em uma hora de entrevista, Laerte Coutinho avalia a figura e as posições de Marina Silva. Do que está em jogo nos projetos de governo para liberdades civis. Fala sobre Malafaia, sobre polarização e a perda de sutileza e da complexidade no debate eleitoral. Discute um pouco do seu passado na esquerda clássica e como certos padrões se repetem hoje no ativismo LGBT. Declara seus votos e conta porque considerou, mas desistiu, de concorrer ao Congresso. 

E com seu humor e leveza de sempre, tenta abrir mais questões do que fechá-las. Algo raro, e extremamente necessário, em tempos de opiniões tão herméticas e estridentes. 


PARTE 1: "Eu acho que a comunidade LGBT é vista como uma minoria. E portanto suas questão são vistas como localizadas. Não são. Essa cidadania se estende a todo mundo." Laerte fala sobre como representa, sem representar, a comunidade LGBT. Explica a gravidade do retrocesso na plataforma LGBT no programa de Marina Silva. 


PARTE 2: "Marina quer brincar com a gente. Ela não quer seguir a cartilhinha da Assembléia. Ela quer vir brincar com as bichas, as sapatas e as travecas." Laerte fala sobre importância e a desimportância de Silas Malafaia no debate eleitoral. A complexidade da figura de Marina Silva e como ela, de acordo com Laerte, não deve ser definida a partir de sua religiosidade apenas. 


PARTE 3: "Todo o tipo de população que pode ser encaixada nas letras LGBT, e juntar com os enrustidos... é mais que 10% da população" Laerte fala sobre polarização e a necessidade de bases mais amplas, transpartidárias, para avanços em pautas civis. Sobre a semelhança entre PT e PSDB. E como essa polarização se reproduz em nichos e rótulos que separam os movimentos civis. 


PARTE 4: "Considerei ser candidata. Mas é um trabalho de uma natureza muito diferente. Exige um grau de concentração que eu não tenho. Eu sou muito dispersiva." Laerte discute porque hesita em concorrer a uma vaga no Congresso. Abre seu voto nas eleições. E sobre seus hábitos na rede social e como isso afeta sua rotina. 

PARTE 5: "Quero fazer um novo trabalho para discutir sexo e política. A sociedade da qual eu faço parte viveu transformações fundamentais nesses campos". Laerte fala sobre como a internet permitiu que ele descobrisse sua identidade feminina. Fala sobre humor e comédia em tempos conectados. E conta um pouco sobre seu projeto futuro: memórias e histórias das últimas décadas para discutir sexo e política. 


 

Apresentação e montagem: Bruno Torturra
Câmeras e áudio: Carol Quintanilha, Fernanda Ligabue e Laura Escorel
Gravado na Balsa, no prédio Farol.