Sociedade da informação

Escritores brasileiros abrem o voto para o Fluxo

reportagem Ronaldo Bressane • arte DW RIbatski

Acima, Ferréz, Ivana Arruda Leite, Rodrigo Lacerda; abaixo, Daniel Galera, Antonio Prata, Santiago Nazarian, Ruy Castro

Acima, Ferréz, Ivana Arruda Leite, Rodrigo Lacerda; abaixo, Daniel Galera, Antonio Prata, Santiago Nazarian, Ruy Castro

Jornalismo é a ciência e a arte da dúvida. Dita assim, esta verdade parece contraditória — e portanto duvidamos também dela. Transitando nesse território instável, o Fluxo, ao investigar as eleições gerais de 2014, propôs questões sobre política institucional a esses seres que tão fluidamente passeiam no território das dúvidas, dos meio-tons, dos mal-entendidos, dos não-ditos, dos benditos e dos malditos: os escritores de ficção.

Fluxo enviou 11 perguntas idênticas a 30 dos mais representativos escritores da literatura brasileira contemporânea. Responderam ou deixaram de responder o que quiseram. Toda semana divulgaremos as respostas de um grupo de escribas ao questionário. As entrevistas serão publicadas na íntegra em um zine e disponibilizada por e-book e papel — um documento da literatura brasileira sobre a política institucional de 2014.

Clique aqui para conhecer um pouco de cada autor.

Um aspecto interessante, que convidamos os leitores a observarem, é justamente a instabilidade e a volatilidade conceitual e filosófica dos escribas em relação à política tradicional. Durante esta pesquisa, muitos mudaram de ideia, outros revisaram posições. E isto é excelente quando se fala de política vista por artistas. A coerência é qualidade esperada por máquinas e por políticos — nunca por escritores. Parafraseando o grande intelectual cearense Falcão: onde houver a fé, que os artistas levem a dúvida.

Eis o questionário editado. Boas pulgas atrás de vossas orelhas:

1. Em 2013 o Brasil saiu do armário.

Pelo menos politicamente. Talvez motivados pelas jornadas de junho, mesmo aqueles mais arredios à ação ou reflexão política soltaram seus demônios. Incluindo os escritores.

Há desde os cotidianamente indignados, que xingam muito nas redes sociais (você sabe quem), os que usam o assunto como matéria-prima ficcional (Paulo Scott no romance Habitante Irreal) quanto os que usam palcos da literatura para tocar em feridas abertas (Luiz Ruffato na Feira de Frankfurt) e até os que batem boca direto com os políticos (como no recente telecatch entre JP Cuenca x Eduardo Paes, na GloboNews), e mesmo os que, por conta de um mal-entendido, ocupam a tribuna lascando a plataforma deste ou daquele candidato (Milton Hatoum indignado com o recuo de Marina Silva na questão LGBT).

O belo filme O Primeiro Homem, que (também) trata da maneira como Albert Camus lidava com a política na Argélia e na França — e do quanto sofreu para sustentar suas posições —, faz pensar em quão distantes nós escritores brasileiros estamos do modelo de atuação do autor d'O Estrangeiro. Em 2014, o intelectual talvez tenha perdido sua relevância no palco político.

Sem mais delongas: qual é a sua?

Ivana Arruda Leite xinga muito no Feice

Ivana Arruda Leite xinga muito no Feice

IVANA ARRUDA LEITE       A minha é esbravejar nas redes. E só. No meu caso, requer coragem, pois me coloco num lugar indefinível onde consigo ter inimigos à direita e à esquerda. Detesto o PT, o Lula e o mensalão mas, ao contrário do que pensam, não sou tucana (já fui), não voto no PSDB nem sou reacionária. Compartilho muitas das campanhas ditas “de esquerda”.

RUY CASTRO          Como disse o Millôr, não sou de direita, porque ela é de direita. E não sou de esquerda, porque ela também é de direita.

DANIEL GALERA     Quando eu era mais jovem me identificava com a direita, depois passei a me identificar com a esquerda, então concluí que a diferença era apenas retórica e que, uma vez no poder, direita e esquerda tinham mesmos interesses e projetos, sempre com o objetivo ulterior de justificar a própria autoridade e sua permanência a qualquer custo. Hoje pauto minha adesão e atuação política por ideias e indivíduos, não por partidos ou tendências. Vocação pública e verminose estão bem distribuídas em todo o espectro político.

FERRÉZ        Impossível não ter uma postura política pois na periferia esse palco geralmente está armado. O problema é que temos acompanhado o afastamento do único partido que tinha coligações por aqui — o PT —, por isso tem ficado difícil defender algo.

ANTONIO PRATA     Se dependesse do fígado, ficaria toda semana falando de chacinas, linchamentos, desvios de verba e debatendo com os boçais de plantão. Mas a gente não faz política só metendo os dedos nas feridas. Contribui-se com a pólis jogando humor ou lirismo na roda também. E é assim, mais que batendo panelas ou parando na frente dos tanques, que tento contribuir.

RODRIGO LACERDA         Todo escritor é cidadão e tem obrigação de participar, sobretudo num país onde o voto é obrigatório. Gosto de tratar de história e inevitavelmente de política nos meus livros. Mas não de participar de debates públicos. Quanto mais leio menos certezas tenho. E acho o nível do debate entre escritores brasileiros muito baixo.

SANTIAGO NAZARIAN        Há um discurso mais profundo e relativista que só pode ser feito na literatura. Se, por exemplo, uma posição política é brigar pela educação, trato de como os processos de ensino podem ser perversos. Se existe a bandeira da geração de empregos, questiono o indivíduo ter de submeter seu dia, lazer e horários à ditadura do emprego. 

2. A arena pública deveria ser mais ocupada por escritores?

Ruy Castro: nem direita nem esquerda

Ruy Castro: nem direita nem esquerda

RUY               Escritores têm mais a fazer do que se candidatar a cargos políticos.

FERRÉZ         Sim, são pessoas com senso para defender e gerenciar, afinal passaram pela labuta artística. No caso de FHC, dizem que foi escritor, rs. Mas se for tipo o Sarney, melhor ficar só nas palavras mesmo.

PRATA           Não me meteria nessa nem a pau. Escritor ocupa arena escrevendo livros.

IVANA           Adoraria ver Marcelino Freire, Luiz Ruffato ou Joca Reiners Terron na tribuna da câmara ou do senado. Estaríamos bem representados. Os discursos seriam mais interessantes.

NAZARIAN     Sim. Mas não se pode falar de "escritores" de forma genérica.

LACERDA     O Vargas Llosa foi candidato a presidente, não foi? O Graciliano Ramos não foi prefeito? Sou contra essa idéia de que o escritor deve se manter alheio, como se o artista estivesse acima dos problemas.

GALERA        Me preocupo com política mas não tenho inclinação para atuar publicamente.

3. Tem um credo político? É de esquerda, direita, tico-tico no fubá ou essas categorias são irrelevantes e datadas?

Pratinha vê o copo meio cheio e meio vazio

Pratinha vê o copo meio cheio e meio vazio

PRATA           Sou "meio intelectual, meio de esquerda". Não sou "de esquerda" porque não acredito na revolução do proletariado. Mas a ideia de que o mundo é injusto e de que o mercado não quer, não pode e não vai resolver picas me é cara. Esteticamente, contudo, talvez eu seja mais pra direita. De volta para o futuro teve mais peso na minha vida do que Terra em transe.

LACERDA     Me considero um idealista-pragmático. Sou liberal na economia, democrata na política e anarquista na cultura. Ser de esquerda é qualquer pessoa que tem como objetivo primordial distribuir a riqueza do país de forma mais justa. De direita é quem acha que a miséria faz parte da condição humana, e que portanto ela é um dado inevitável. De esquerda é quem tem projetos político-econômicos que procurem responder às questões contemporâneas; e de direita são aqueles que desencavam projetos antigos, regressivos e que atropelam uma análise mais objetiva do mundo atual. Contudo, no mundo contemporâneo, tanto esquerda quanto direita dão respostas industriais para perguntas pós-industriais.

FERRÉZ        Do mesmo jeito que tenho críticas a Dilma, quando vejo um cartaz numa mansão dizendo "Fora Dilma" fico com vontade de votar nela. Fui de esquerda quando isso existia no Brasil; agora é tudo coesão, então estou desacreditado do cenário — como a maioria do povo.

IVANA            Tico-tico no fubá. As categorias direita/esquerda precisam ser repensadas pra dar conta da multiplicidade de posições políticas de hoje.

NAZARIAN     Minha posição individualista tenderia à direita, mas vai contra o conservadorismo, "proteção à família" e valores capitalistas. Sou contra o indivíduo submeter-se a poderes superiores — religião, Estado ou patrão. E contra hierarquias. Talvez seja um anarquista

4. Votou em quem nas últimas eleições para presidente? Fez campanha abertamente? É favorável ou contra isso?

RUY               Não voto em ninguém desde 1990 — a última pessoa em quem votei foi Mario Covas. Mas também me arrependi.

IVANA           Voto nulo sempre, de cabo a rabo, desde 2005. O mensalão me fez desacreditar da política e dos políticos em geral.

FERRÉZ        Sou favorável à pessoa tomar atitudes, mesmo que seja declarar voto nulo ou em branco. Como fiz na eleição passada, não vou votar no menos ruim, então faz 10 anos que não falo abertamente de nenhum candidato —  culpa deles, pelo que não fizeram esse tempo todo.

GALERA        Nas últimas eleições votei na Marina sem muita convicção, por causa da bancada evangélica, que na área dos costumes é um exército de retrocesso.

LACERDA     Não estava entusiasmado com o candidato em quem votei, por isso não vou dizer quem foi. Era o menos pior.

PRATA           Votei na Dilma, sem convicção, achando que o PT deu passos importantíssimos para o país em alguns aspectos e chafurdou na velha lama de sempre, em outros.

Objetivo. Ferréz não quer ser arroz de causa

Objetivo. Ferréz não quer ser arroz de causa

5. Defende — ou milita por — alguma causa específica? 

PRATA       Casamento gay, legalização da maconha e do aborto.

IVANA        Sou simpática a muitas causas (ecológicas, direitos das minorias, dos gays, cotas, liberdade de expressão) mas o Facebook é a minha plataforma.

FERRÉZ        Militei em muitas causas mas agora to mais no meu quadrado, senão a gente vira arroz de festa. Nas coisas em que acredito sempre estou compondo mesa, como a questão periférica ou do extermínio da juventude da periferia.

GALERA        É possível discordar de militantes na mesma medida em que se concorda com as ideias essenciais que defendem. A militância tem duplo caráter: a defesa radical de uma causa engendra um tipo específico de egoísmo, uma cegueira às complexidades sociais e à opinião alheia; mas é justamente esse radicalismo egoísta e obsessivo da militância, cuja energia é canalizada em ação direta, que muitas vezes força a mudança social em torno de uma causa justa, ainda que os métodos possam ser questionáveis. Não me envolvo com esse tipo de militância mas estou atento ao que se pode chamar de militância privada, a importância de agir no dia a dia, nos pormenores da vida pessoal, de acordo com o que acreditamos. Isso é tão ou mais importante que a militância coletiva ou institucionalizada. Sou a favor da legalização das drogas, embora odeie quase todas as drogas; a favor do aborto na maioria dos casos, ainda que considere perigosa sua banalização. E a favor da liberdade sexual plena e igualdade de direitos entre homens e mulheres. Mas não engulo o policiamento de costumes praticado por militantes dessas causas.

LACERDA     Sou a favor da flexibilização da legislação a respeito das drogas, totalmente a favor do casamento gay e das liberdades e direitos civis. E sou totalmente a favor dos transgênicos, sem os quais mataremos milhões de pessoas de fome no mundo.

RUY                Não.

NAZARIAN    Não. 

6. Tem ou teve militância política em algum partido ou causa? Já trabalhou no governo ou no Estado ou em alguma campanha política? Gostou?

Santiago prefere lutar por uma política do subjetivo

Santiago prefere lutar por uma política do subjetivo

IVANA        Trabalhei muito em campanhas políticas no início da abertura (1978, 80, 82). Era uma militante apaixonada. Comecei no PMDB, passei pelo PT e terminei no PSDB. Todos me decepcionaram. Aos 62 anos não há partido nem político que me faça sair à rua para defendê-lo. Fora que trabalhei 30 anos na periferia de São Paulo, amassando barro nas favelas do Campo Limpo, Capão Redondo e adjacências. Conheço a administração pública, especialmente a da Assistência Social. Entrei no governo Erundina e saí no Haddad; passei por Maluf, Pitta, Marta, Kassabno poder são todos iguais. A diferença entre as administrações é nula. A máquina anda sozinha, seja quem for o cacique da hora.

GALERA        Em 2004 fui Coordenador do Livro e da Literatura na Secretaria de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre. Aceitei o convite não por envolvimento com o partido (o prefeito recém eleito era o Fogaça), mas sim porque o novo secretário, Sérgius Gonzaga, era um ex-professor por quem tinha admiração. Fiquei apenas 4 meses, após confirmar que não tinha a menor vocação para um cargo público.

RUY              Estudei ciências sociais na Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro entre 1967 e 1970, quando era repórter do Correio da Manhã. Os que se interessam por política devem saber o que isso significa. Talvez por isso, nunca tive estômago para chegar perto de qualquer político ou partido, muito menos de qualquer governo.

FERRÉZ        Militei para o PT uma época, vendi broche, bandeirinha. Tenho orgulho de ter saido para lutar por uma quebrada melhor. Mas o PT se adaptou ao grande cenário, trocaram os militantes pelos marqueteiros e a gente foi deixado de lado. Uma pena, pois era tudo de coração. Hoje, quando a molecada chega pra conversar, tento fazer eles estudarem bem os caras; mesmo com tanto descrédito, não tento fazer ninguém ser apolítico —isso só deixa os outros na vantagem.

LACERDA     Nunca fui filiado a partidos, mas me identifiquei muito com o PSDB. E trabalhei numa assessoria de imprensa do falecido governador Mário Covas. Achei interessante ver de perto como as forças políticas, a chamada sociedade civil, se organizam e atuam.

PRATA           Aos doze anos uma colega da escola me levou a uma reunião num comitê petista. Fui ao banheiro, li "Companheiros" no masculino e "Companheiras" no feminino — e achei que era o suficiente pra ficar longe.

NAZARIAN    Não.

Galera: política com as próprias mãos, não 

Galera: política com as próprias mãos, não 

7. Política e literatura se misturam? 

LACERDA       Assino embaixo do colega Marçal Aquino: "Sempre vamos gostar mais de escritores políticos do que de políticos escritores"

IVANA       A política no espaço literário (quando sai do panfleto) rende livros maravilhosos. Há escritores que vão às ruas e metem o bedelho na política costumam gerar bons frutos — como Amós Oz, militante pela paz no conflito Israel / Palestina.

PRATA           Ao fugir do lugar comum, da palavra da moda, da ideia mais cômoda (ou que incomoda mais, pela vaidade da discórdia), o escritor tem um papel político.

GALERA        Fazer política não é função da literatura. O compromisso do autor é com sua voz, que pode ter inclinações políticas, metafísicas, formais ou de escapismo. Há os que invocam caráter político para o que publicam — mas não há força política em suas obras. O contrário também acontece. Para um escritor tudo começa e termina nos livros.

FERRÉZ        Tento deixar o texto fora disso; na ficção a gente pode deixar isso pra lá, pra poder ser um pouco feliz.

Rodrigo Lacerda: reformas sim, mas só na paz

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8. O pensamento político do escritor tem ressonância na formação da opinião da sociedade?

LACERDA     A literatura perdeu relevância em vários planos, inclusive no âmbito da formação e da reflexão política dos cidadãos. No Brasil, mais acentuadamente, pois a política se tornou um fenômeno de massas, enquanto a literatura continua sendo, regra geral, espaço elitista. E a patrulha política brasileira é forte, intimida os escritores a refletirem livremente sobre política. A política nos coloca diante de paradoxos, dilemas, contradições, e quando se exige um pensamento político organizadinho, regradinho e obediente a determinada ideologia ou padrão politicamente-correto, os escritores mais sensíveis evitam tratar do assunto, e os menos sensíveis são "teleguiados" demais.

PRATA      É um poder pequeno, ainda mais num país como o Brasil, entanto lutamos mal rompe a manhã.

IVANA       É incrível a força da literatura. Vide o que sofrem os escritores que se atrevem a abrir o bico em países onde não há possibilidade de se livre expressão. São perseguidos, banidos, ameaçados. Pra citar um exemplo recente, na questão das biografias não-autorizadas a voz dos escritores se fez ouvir e, ao que parece, o direito à livre expressão vai prevalecer.

GALERA        O escritor ocupa posição de privilégio na formação da opinião. A sociedade dá autoridade à sua voz. Não obriga o escritor a militar abertamente, mas o obriga a evitar a todo custo a leviandade e a impostura em todo e qualquer âmbito das ideias.

NAZARIAN    A influência do escritor é muito restrita. Por isso acho tão importante tratar de questões subjetivas. Se conseguir tocar um indivíduo, já faço minha parte. Não me iludo em mudar a sociedade.

Cada cabeça, várias sentenças

Cada cabeça, várias sentenças

9. Que acha da democracia direta? Ação direta? Desobediência civil?

FERRÉZ        Gosto da desobediência civil. A ordem só prejudicou meu povo.

RUY              Desobediência civil é sempre válida, mas democracia direta é coisa de totalitários e ação direta só se justifica em ditaduras.

LACERDA     Sou pacifista e reformista. Um povo não queima etapas em seu desenvolvimento sem traumas, violência e morte. Mas uma dose de agitação e de desobediência civil pode ser necessária. Certos nós políticos só com o povo na rua se desatam.

IVANA       As mudanças devem ser feitas sempre pelas vias constitucionais. O Brasil dos meus sonhos nascerá das urnas, do voto popular, do embate que se dá dentro da política. Urge uma reforma política que faça uma faxina geral nos partidos, nas campanhas, nos políticos. Sou contra os black blocks e toda forma de violência na luta democrática.

GALERA        A democracia direta como modelo é uma utopia, assim como o anarquismo (pelo menos num mundo com nossa densidade populacional). A democracia representativa é ineficiente, mas o melhor que temos. Mesmo num cenário de insatisfação pressurizada como o atual, convém não esquecer em que medida nossos representantes de fato nos representam (bem mais do que a maioria das pessoas gosta de admitir). Quanto a ação direta e desobediência civil, em geral penso que se devem respeitar leis que valem para todos e tantar mudá-las ou aprimorá-las dentro do sistema. Não gosto da atuação dos black blocs. O povo que trepou pacificamente em cima do Congresso Nacional fez muito mais pela nação do que a rapaziada que tacou fogo em lixeira e quebrou vitrines para "violência simbólica". Todavia, há cenários em que a balança desequilibra. A violência policial desnecessária é o exemplo mais gritante de uns tempos para cá.

PRATA           Ação direta é tanto um mutirão quanto um linchamento. Desobediência civil também, pode ser como os sit-ins do movimento pelos direitos civis, nos EUA, ou como a invasão do laboratório para roubar os beagles, em São Roque. Não acho que "o povo" seja o portador da verdade. (Não dizendo com isso o oposto, que o povo deve ser tutelado por sábios ou generais). Mas a democracia representativa tem uma razão de ser e não deve ser descartada sob o argumento de que "esses políticos não valem nada".

10. Abaixo-assinados recheados de escritores servem para algo?

RUY               Das dezenas que assinei, nos anos 60 e 70, nenhum serviu para nada. A ditadura nem se abalou.

PRATA          Sim. Pessoas conhecidas, escritores ou não, associando seus nomes às causas, chamam a atenção pra elas.

FERRÉZ        Pra nada.

IVANA           Na dúvida, assino. Meu front é a poltrona da sala.

NAZARIAN   Sim.

LACERDA     Sim. Gosto de saber como os artistas que admiro se posicionam.

11. Em quem vota (presidente, governador, senador, deputados federal e estadual)?

LACERDA     Presidente: Marina (ia de Eduardo Campos, pois gostava da mistura dos dois; vamos ver como o programa e o perfil dela vão se definir). Governador: Alckmin (apesar dos pesares, os serviços públicos em SP são melhores que nos outros Estados; a corrupção não chega a diluir completamente o emprego do nosso dinheiro, as coisas acontecem minimamente, o que nem sempre é verdade Brasil afora). Senador: o Suplicy é um excelente candidato, mas o maior castigo para o autoritarismo do Serra é devolvê-lo ao Parlamento! Deputado federal: Erundina. Deputado estadual: Daniel Annemberg.

NAZARIAN     Vou votar em todos os candidatos do PV. Apenas para presidente pretendo votar na Dilma, para engrossar o caldo contra Marina.

IVANA           Marina para presidente, Padilha para governador e Serra para senador.

FERRÉZ         Não vou votar em ninguém, não tenho mais fé na conjectura das coisas.

PRATA           Ainda não escolhi nada. Sou um indeciso. (Mas não branco nem nulo.) O único voto certo é Suplicy no senado, o resto que me convença...

RUY               Como colunista da Folha de S.Paulo, não devo ficar declarando votos por aí. Na verdade, não gosto de nenhum deles, embora goste menos de algumas do que de outros...

GALERA        Sinceramente não sei ainda.

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