CARL HART ESCLARECE O EPISÓDIO DO HOTEL

"Eu aprendi com esse evento que não sou mais um homem negro comum. Se eu fosse, ninguém se importaria com o que aconteceu comigo"

Quando voltou ao seu quarto de hotel, no Tivoli Mofarrej, na noite de sexta feira, dia 28, Carl Hart não acreditou no que viu. Seu nome por toda a internet brasileira e centenas de emails prestando solidariedade por conta da discriminação que sofreu em São Paulo. Uma discriminação que ele simplesmente não tomou conhecimento.
Surpreso com a repercussão, Carl Hart esclarece que, ao contrário do que dezenas de textos na imprensa divulgaram, não foi barrado na porta do hotel. E sua declaração sobre o abismo racial no Brasil durante a palestra no Seminário Internacional de Ciências Criminais, no mesmo hotel, não se relacionava com qualquer constrangimento que ele tenha sofrido. Mas com algo, em sua opinião, ainda mais grave: o racismo estrutural brasileiro. Que não recebe qualquer destaque, nem indignação pública, quando dirigido a pessoas sem o destaque ou a posição que ele ocupa.

Falando pela primeira vez à imprensa após o ocorrido, o professor Carl Hart veio ao Estúdio Fluxo para esclarecer o episódio e falar sobre o que considera mais importante nisso tudo.

Por enquanto, apenas em inglês. Legendas em português logo mais.

E abaixo, o mini doc que o Fluxo fez na passagem de Carl Hart ano passado. Onde fica bem mais claro o tipo de racismo que não se comenta tanto no Brasil. 

E aqui, a transcrição da entrevista sobre o incidente:

FLUXO: O que realmente aconteceu com você no Hotel que gerou toda essa loucura?
CARL HART: Eu estou tão confuso quanto a sua pergunta sugere. O que realmente aconteceufoi o seguinte: quando eu cheguei dos USA anteontem, eu fui ao hotel. E imediatamente depois de sair do carro, eu fui direto ao banheiro. E não houve qualquer problema. Mas quando saí do banheiro, os organizadores da Conferência vieram se desculpar.

Então a primeira coisa que você ouviu foi alguém pedindo desculpas?
Sim, a primeira coisa que ouvi foi alguém se desculpando pelo que aconteceu. Eu não entendia o que tinha acontecido. Eles me disseram que quando eu estava andando pelo Hotel, um segurança estava indo me abordar, porque eu não parecia pertencer ao local. Eu não testemunhei nada disso. Isso é apenas o que essa pessoa me contou.
E eu pensei: "Ok, isso acabou. Vocês cuidem disso" Eu pensei que todo o ocorrido tinha acabado.

No dia seguinte, eu fiz uma fala na Conferência. Na minha fala, eu sublinhei quão branco o público era. Um público de centenas de pessoas. Estamos no Brasil, 50% da população é negra, e há dois ou três negros aqui. Há alguma coisa errada nisso. E eu pontuei alguns aspectos. Sem relação com a minha entrada no hotel. Mas, mais à noite, eu descubro que há uma notícia de jornal, talvez online, dizendo que eu fui barrado ao entrar no hotel. E o artigo relacionava a observação que fiz em minha fala na Conferência ao fato de eu ser, supostamente, barrado na entrada. O que não aconteceu. Então, a notícia era enganosa. Mas ela viralizou. E eu recebi ligações, e-mails, mensagens no twitter e no facebook, de todo parte, pedindo desculpas pelo comportamento dos brasileiros.
Primeiro de tudo, quero deixar claro que se algo tivesse acontecido, eu seria o primeiro a me pronunciar. E eu sei como lidar com a mídia. Segundo, a notícia era enganosa. E terceiro, o Brasil tem um sério problema de discriminação racial. E a indignação que as pessoas expressaram por esse evento que não ocorreu deveria se direcionar ao modo como os negros são tratados nesse país. Não a mim. Eu faço parte da burguesia. Eu não preciso desse tipo de apoio. Nós precisamos apoiar as pessoas marginalizadas desse país. Fazer algo bom com essa energia. Mas não desperdiça-la comigo.

Como você se sente? Você veio ontem transmitir uma mensagem e clara e poderosa não apenas sobre discriminação social, mas discriminação social e econômica. Como você se sente com toda essa atenção sobre algo que não era exatamente o que você veio discutir?

Acho que esse episódio é emblemático de como nós, no Brasil, nos EUA, ficamos muito felizes de discutir discriminação racial de modo estridente e pervertido. Eu tentei abordar isso em meu discurso. A discriminação acontece quando colocamos polícias exclusivamente em comunidades negras. Quando prendemos esse número enorme número de negros. Isso acontece hoje em dia. E ninguém fica indignado com isso. E é com isso que devemos nos indignar. E não com esse evento que supostamente aconteceu comigo.
Na minha fala, eu tentei encorajar as pessoas, sem ligação com o evento que supostamente aconteceu comigo, a pensar em como usamos a política de drogas para perpetuar a discriminação racial. E sobre esse evento... eu espero que a gente supere, porque o que realmente importa são os negros discriminados dia após dia no Brasil. Não um professor, burguês, que se hospede em Hotel de cinco estrelas. Isso não é uma questão. Isso não é um problema. Eu não preciso de desculpas e apoio. Nós precisamos apoiar essas pessoas do dia a dia.
Eu aprendi com esse evento que não sou mais um homem negro comum. Se eu fosse, ninguém se importaria com o que aconteceu comigo. Então que tal a gente se preocupar com as pessoas comuns e não comigo?