JORNALISMO EM FLUXO

Diálogos sobre a crise, as oportunidades e a rápida transformação do jornalismo brasileiro na sociedade em rede

 

O Estúdio Fluxo existe desde janeiro do ano passado. Primeiro como espaço físico. Um salão vazio em precárias condições a ser remodelado no centro de SP. Logo depois como canal, site, espaço de encontros e eventos jornalísticos. Mas nunca chegamos a funcionar propriamente como o que pretendemos ser: um veículo. 

Fracasso nenhum aqui. Era o plano. A convicção por trás do projeto do Fluxo sempre foi a de que nosso modelo de redação, de negócio, nossa linha editorial seriam frutos do próprio percurso e, principalmente, de uma nova relação entre público e jornalista. E de que esse novo veículo que pretendemos ser não será apenas uma resposta à crise que erode as antigas redações. Mas o resultado do experimentalismo que a sociedade em rede propõe e demanda. Daí nosso nome, FLUXO. O processo como o próprio destino do jornalismo hiperconectado.

Fizemos vídeos, streamings, eventos, debates, textos, campanhas. Trabalhamos em parcerias, por encomenda, por conta própria. Recebemos doações do público. Fizemos algumas dívidas e muitos amigos nesses tempos. Mas por 20 meses, podemos dizer que o trabalho mais intenso e consistente do Fluxo foi feito sem cobertura. Aconteceu fora das câmeras ou timelines. Foi a rotina diária, nada estável, das tentativas, erros, acertos e muitas conversas com muita gente que, como nós, está repensando a viabilidade do jornalismo em tempos instáveis. Gente que, como nós, mesmo entre a revoada de passaralhos, não se conforma com o fatalista clichê da "morte do jornalismo".

Entre muitas questões, uma convicção: esse debate precisa ser melhor organizado. Precisa se tornar mais público. E precisa, de alguma forma, envolver e congregar boa parte da imprensa atuante no país. Foi essa convicção que gerou o projeto que, hoje, viemos a público anunciar: JORNALISMO EM FLUXO.

Uma série de diálogos, entrevistas, artigos, encontros para discutir o estado da nossa mídia. Abrir uma conversa ampla e pública entre profissionais e pesquisadores da comunicação. Tentarmos, juntos, traçar não só o mapa dessa crise. Mas descobrir possíveis caminhos para uma nova e sustentável realidade para a imprensa brasileira. 

Assim, durante os próximos 6 meses, o Fluxo vai conduzir conversas, levantar materiais de referência no Brasil e no mundo sobre a transformação da mídia. A partir das principais questões, pautar encontros coletivos. Receber, no estúdio, um grupo capaz de contribuir com essa reflexão. E, claro, compartilhar esse material com o público. 

Abaixo uma lista dos temas que devem pautar alguns de nossos encontros, entrevistas e matérias que vamos compartilhar no site. Ao longo do processo, certamente, muitos outros tópicos irão surgir. Por enquanto, essa é a uma pauta inicial:

  1. QUE CRISE É ESSA?
    É correto decretar o estado terminal de uma profissão tão estruturante para a democracia? Será útil – ou inteligente – confundir o modelo industrial de produção e distribuição de notícias com o ofício e a função social do jornalista? O que está causando a derrocada financeira das redações? Migração da publicidade, novos hábitos do público, a informação grátis nas redes, miopia das grandes empresas de comunicação?

     
  2. QUEM PAGA A CONTA?
    A questão central do modelo de negócio. Com a erosão do antigo formato de publicidade e circulação, quais são as alternativas comerciais para a mídia? Será que as transformações técnicas e sociais que abalaram a solidez econômica da imprensa estabelecida não abrem o campo para novas formas de financiamento de veículos, redações e repórteres? Entraves, oportunidades e riscos. Exemplos bem sucedidos no mundo. O papel da publicidade, filantropia, dinheiro público e dinheiro do público. Quais saídas tecnológicas podem abrir novas possibilidades financeiras.

     
  3. MÉTRICAS
    Audiência versus impacto. Como avaliar relevância, qualidade, penetração e valor de um veículo além da contagem de cliques, likes e compartilhamentos? Qual o déficit tecnológico que nos impede de criar unidades e ferramentas para aferir tais variáveis? Como transformar novas métricas em medidas de valor capaz de gerar receita?

     
  4. ALÉM DO RUÍDO
    Como estabelecer prioridades e hierarquizar pautas no ambiente digital. O novo papel do publisher, novas editorias emergentes, a nova linguagem e papel das manchetes, como romper bolhas de interesse no ambiente digital. Informação versus notícia. As fronteiras cada vez menos claras entre “conteúdo” e jornalismo. 

     
  5. REDAÇÃO DO SÉCULO 21
    O desafio de recriar equipes jornalísticas na cultura de rede. Novas estruturas editoriais, novas hierarquias e os valores históricos do jornalismo. Quais os novos cargos e habilidades para profissionais de mídia. Grandes redações ainda são necessárias? A emergência de grandes veículos globais e como recuperar a viabilidade da imprensa local.
     
  6. A NOVA MÍDIA E A VELHA LEI
    Vulnerabilidades jurídicas, direitos autorais e acesso à informação. Como garantir a liberdade e a segurança da imprensa em redações cada vez menores e subfinanciadas? Autoralidade e cultura de rede: como garantir a propriedade intelectual do jornalista e ampliar o direito social à notícia? 

     
  7. A PÓS-AUDIÊNCIA
    A relação com o público. Como o financiamento, novos modelos de assinatura, difusão, apuração em rede e decisões editoriais podem envolver a audiência para além do mero consumo de informação. Os novos hábitos do público e a cultura do compartilhamento como o futuro da difusão da mídia de massa.

     
  8. ALGORÍTIMOS: O NOVO DESIGN
    Programação como projeto editorial. O papel central do programador e designers digitais na criação dos novos veículos. As limitações das atuais redes sociais para a imprensa. E que tipo de novas plataformas e softwares poderiam emergir a partir das necessidades e fundamentos do jornalismo. 


Na próxima semana, vamos colocar no ar o site do projeto e começar a abastecê-lo com o dia-a-dia das conversas, bibliografia, boas fontes e com os materiais produzidos e descobertos em nossa pesquisa e com o saldo - em texto e vídeo - dos encontros que vamos promover no estúdio.

Até o final de setembro, quando ocorrerá nosso primeiro evento coletivo, vamos divulgando mais detalhes, nomes e organizações que irão colaborar no processo. 

Para dúvidas, sugestões, colaborações e ideias, podem nos escrever em jornalismo@fluxo.net


Esse projeto só foi possível graças ao apoio e parceria do Instituto Arapyaú, da Open Society Foundations e da Fundação Ford.