ANDRÉ SINGER - A QUE PONTO CHEGAMOS?

"A esquerda recuou. E parte significativa da esquerda mundial acabou achando que o mais interessante do ponto de vista eleitoral era aderir à teses neoliberais"

 

Desde que deixou o cargo de porta voz do presidente Lula durante seu primeiro mandato - de 2003 a 2007 - o professor, cientista político e jornalista André Singer assumiu a tarefa de intérprete do que é o "lulismo". Que, em sua famosa definição, representou um "pacto conservador e reformismo gradual". Dito de uma outra forma, a tentativa de promover transformações na estrutura social brasileira sem rupturas, sem disputa ideológica, em torno de uma conciliação de classes.

Durante os anos de crescimento econômico e alta popularidade do governo petista, André seguiu atento, ao mesmo tempo generoso na análise e implacável nas críticas em torno das contradições desse arranjo que, mesmo em tempos mais pacíficos, já parecia criar as condições para um renovado confronto de classes. Ou, como ele mesmo definiu recentemente, "a reunificação da burguesia". Uma dinâmica que, segundo Singer, foi o que dinamitou a estabilidade política em seu segundo mandato. 

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A reavaliação do Lulismo diante da presente crise política é o tema central de seu novo livro, uma compilação de artigos organizados por ele e Isabel Loureiro, "As Contradições do Lulismo" (Ed. Boitempo). de seu artigo que abre o volume: "A (falta de) base política para o ensaio desenvolvimentista", em que ele remonta dois pronunciamentos da presidenta. Um no primeiro de maio de 2012 e outro no primeiro de maio de 2015.

É dentro desse intervalo que ele circunscreve as dinâmicas que comprometeram a tal conciliação de classes. Principalmente o "paradoxo", como ele define, de uma elite industrial que refutou o intervencionismo do Estado à favor do próprio empresariado.

Para além dos escândalos, da Lava Jato, de Junho de 2013 e das grandes manifestações, André busca ampliar sua análise sob um tensionamento mais intenso proposto por Dilma - e capitulado depois da eleição de 2014.


A entrevista foi gravada dia 6 de dezembro de 2016 em dos dos jardins da FFLCH, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais da USP. Onde André Singer leciona e coordena o Cenedic - Centro de Estudos do Direito à Cidadania. Onde o livro "As Contradições do Lulismo" foi gestado.
 


PARTE 1 - HÁ MÉTODO NA LOUCURA DA POLÍTICA NACIONAL?


"A Lava Jato está questionando o que foi o modo de funcionamento da política brasileira desde 1945. E está desmontando esse relógio. E é muito difícil esse relógio seguir funcionando enquanto isso"


Antes de entrar na análise dos anos Dilma, André Singer comenta sobre o atual momento da política nacional. Sobre o alto grau de instabilidade, do impacto inédito da Lava Jato sobre a normalidade política e, comentando sobre a configuração partidária brasileira, defende que, apesar dos enormes defeitos, há virtudes de nosso sistema que não podem ser esquecidas pela opinião pública. 

 

PARTE 2 - A DEMOCRACIA ABUSADA


"De fato, se criou uma situação bem complicada que faz com que a gente tenha uma preocupação grande com o futuro da democracia brasileira."

Explicando porque acredita que o Brasil sofreu um golpe parlamentar com o impeachment de Dilma, Singer salienta que ainda estamos vivendo sob uma democracia. E que é importante reconhecer isso, e o funcionamento das regras institucionais (ainda que tensionadas), para que possamos defender a própria democracia dos riscos ainda mais graves implícitos nessa crise.
Trata do abuso de autoridade, da exaltação do judiciário por parte da população e do que isso pode representar para a saúde democrática.

 

 

PARTE 3 - A REUNIFICAÇÃO DA BURGUESIA E A CAPITULAÇÃO DO DILMISMO

"A burguesia brasileira tem muito medo do Estado. Da mesma forma que ela precisa do Estado, pois sem o Estado ela não tem as condições necessárias para crescer, a burguesia tem muito temor do que um Estado fortalecido pode fazer. Sobretudo porque esse Estado fortalecido poderia vocalizar interesses populares que resultariam em um processo reformista mais forte"


Tratando do artigo "A (falta de) base política para o ensaio desenvolvimentista", Singer descreve o processo de fundo que erodiu a estabilidade do governo Dilma. Em sua opinião, uma reunificação da burguesia nacional contra o processo de intervenção do Estado em prol da parte dessa mesma burguesia. E explica porque Dilma, no fundo, buscou um reformismo mais forte do que o próprio Lula. 

 

PARTE 4 - COMUNICAÇÃO, MÍDIA E A NÃO DISPUTA IDEOLÓGICA LULISTA

"Não é falta de comunicação, é uma questão política do lulismo. Ele é um projeto que não faz luta ideológica. Porque não quer radicalizar"

"André Singer não atribui a uma "falha de comunicação" a perda de base política e popular do governo Dilma. Mas à deliberada falta de disputa ideológica e embate de ideias que definiram o lulismo e sua proposta de conciliação.

André trata das distorções na imprensa brasileira e de como, sem debate, uma doutrina econômica, essencialmente neoliberal, foi tratada como "natural" diante da sociedade.

E analisando as dificuldades econômicas que ainda nos esperam, Singer especula sobre o futuro do governo Temer e o que o sustenta no Planalto.

 

PARTE 5 - A DIREITA FORTE, A ESQUERDA VACILANTE E O SENTIDO DO LULISMO EM 2018

"A esquerda recuou. E parte significativa da esquerda mundial acabou achando que o mais interessante do ponto de vista eleitoral era aderir à teses neoliberais. E fazer uma espécie de neoliberalismo humano. O que não é muito possível a meu ver. E quem começou a dar respostas a isso foi a extrema direita"

Singer traça distinções entre a ascensão da extrema direita nos EUA e na Europa e o que pode ser uma onda reacionária no Brasil. O pleno emprego americano, Donald Trump e os incomodados pela globalização. Reconhece o surgimento de vozes de extrema direita no Brasil, mas ainda não acredita ser capaz de formar uma maioria. Para Singer a questão econômica será o fator central - e de maior risco - no horizonte político dos próximos anos.
Afirma que a esquerda mundial foi vacilante, perdeu posição e deixou muito da insatisfação e radicalidade para a direita.
E responde que, apesar de natural, a candidatura de Lula em 2018 deve ser capaz de repensar qual o "sentido do lulismo" de hoje em diante. 

 

Apresentação: Bruno Torturra

Câmeras : Renata Ursaia e Thiago Neves

Direção e produção: Susana Jeha

Edição: Bruno Torturra e Thiago Neves

Áudio: Rafael Bahia