CÓRTEX - O Brasil sem chão e a terra firme dos Sem Teto


Guilherme Boulos na Ocupação Povo Sem Medo
SÃO BERNARDO DO CAMPO


Na véspera da censura ao show de Caetano Veloso na ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto em São Bernardo, fomos recebidos por Guilherme Boulos, o coordenador nacional do MTST, para uma caminhada pelo acampamento - hoje o maior entre os mais de 40 em atividade pelo país. E para uma conversa sem cortes sobre a visão, a estrutura, a organização do movimento e a realidade das 12 mil famílias que compoem essa ocupação. 

 
NA CONSTITUIÇÃO O DIRETO À PROPRIEDADE ESTÁ CONDICIONADO À FUNÇÃO SOCIAL. POR ISSO A OCUPAÇÃO NÃO É ILEGAL. NA MEDIDA EM QUE O ESTADO NÃO FISCALIZA A FUNÇÃO SOCIAL, EM NENHUM DE SEUS NÍVEIS, A OCUPAÇÃO É UMA DENÚNCIA DISSO

o convidado


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Em 2017 0 MTST faz 20 anos. Um período crucial para a compreensão das dinâmicas econômicas e políticas que redefiniram as cidades, a demografia, o capital e a cara da desigualdade brasileira no século 21. Mas foram nos últimos 4 anos, com o aprofundamento da crise política, econômica e social do Brasil, que o movimento começou a tomar um lugar central nos tensionamentos públicos, institucionais e no debate dos rumos da uma esquerda à deriva.

Guilherme Boulos, como coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, vive na pele também o reflexo e os estigmas da crescente importância do movimento e do ódio ao próprio MTST: renovador da esquerda. Esquerdista ultrapassado. Presidenciável. Extremista. Herói popular. Bandido. Adjetivos atirados em posts, artigos de jornais ou diretamente à sua pessoa quase todo dia.

Adjetivos que ele dispensa quando, com tempo para falar, discute os problemas em torno dos quais dedica sua vida: o caráter estrutural do déficit habitacional no capitalismo brasileiro. E a mentalidade patrimonialista que define a dinâmica econômica nacional. A mesma mentalidade que parece se radicalizar no Brasil de Temer. 

Aos 35 anos, 15 deles no MTST, Boulos se divide entre a coordenação do movimento, a articulação da resistência de rua ao governo Temer na frente Povo Sem Medo, na criação da plataforma Vamos, inúmeras entrevistas, reuniões e toda a pressão que, naturalmente, define o tipo de vida que ele escolheu ter.  Assim como é natural que, com tudo isso,  se consolidando como uma das mais influentes lideranças de esquerda no país. E está sendo considerado por muitos, para não dizer cortejado por outros, para a corrida presidencial em 2018 pelo PSOL.

Sobre isso, Boulos desconversa. Mas sobre todo o resto que perguntamos a ele, fez questão de responder com toda a clareza, paciência e assertividade que o trouxeram até aqui.  


a conversa


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Em uma hora de conversa, Guilherme nos apresenta a ocupação de São Bernardo do Campo. Mostra como se organiza e como funciona uma ocupação. Quem são as pessoas que ocupam. O que significa ser um Sem Teto no país. Que tipo de imóvel o MTST ocupa. Quais trechos da Constituição, na visão do movimento, dá respaldo à suas ações. Os números e as raízes do problema fundiário urbano brasileiro.

Os importantes avanços e os erros fundamentais do PT no poder. A radicalização do capitalismo no governo Temer. O que pode definir uma nova esquerda nacional. Como a luta por moradia é a restauração de laços comunitários. Como o capitalismo invade a psique. E como a organização social por ser, acima de tudo, uma saída para problemas existenciais.

São temas demais para listar em breves parágrafos. Mas convidamos vocês para um passeio pela maior ocupação de Sem-Teto do país. E para ver e ouvir, sem cortes, do que se trata um dos mais importantes - e menos compreendidos - fenômenos sociais do Brasil contemporâneo.


O TRAJETO


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Esse episódio de Córtex foi uma caminhada pela ocupação Povo Sem Medo, em São Bernardo do Campo. Esse acampamento foi estabelecido no início de setembro de 2017. 500 pessoas chegaram no dia 1. Em duas semanas mais de 8 mil famílias montaram barracos e começaram a frequentar as atividades da ocupação. São 12 mil famílias cadastradas, 4 mil na fila de espera. 19 grupos com coordenação própria, 19 cozinhas, 1 cozinha central, 1 palco, 1 biblioteca, 1 barracão para reuniões. Fossas sanitárias ecológicas. 2 hortas. 1 composteira.

Essa é uma das mais de 50 ocupações do MTST em atividade no Brasil.


 
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Direção: Susana Jeha

Câmeras: Susana Jeha e Raull Santiago

Apresentação e edição: Bruno Torturra