CÓRTEX - Cérebro, Consciência e a Realidade do Ego - um passeio com Lotje Sodderland


"Há esse real conflito entre o aspecto material da neurociência e o reino imaterial da consciência. E isso é central nessa enorme crise de saúde mental. Essa enorme infelicidade no mundo enquanto vivemos com mais conforto do que nunca na história"

 

A CONVIDADA

Por conta de um sério acidente vascular, a cineasta e documentarista inglesa Lotje Sodderland hoje tem um cérebro que, para o atual paradigma médico, é "danificado". Mas, para a própria Lotje, o "defeito" pode representar um tipo de privilégio: o de ver e sentir o mundo de outra forma. Ganhar insights sobre como a realidade é uma construção muito mais flexível do que nossos cérebros "saudáveis" sugerem. E, principalmente, questionar o paradigma materialista da neurociência que, na prática, salvou sua vida. Mas pode não explicar a subjetividade e do que a própria consciência se trata. 

Lotje é autora e protagonista do filme 'My Beautiful Brokem Brain", produção do Netflix em parceria com David Lynch. No filme, ela remonta o derrame que sofreu e de que forma esse assustador evento transformou seu mundo de formas tão inesperadas quanto interessantes. Ao lado você assiste ao trailler do documentário. 

Hoje ela é exemplo vivo e uma das melhores vozes capazes de traduzir as potencialidades e limitações de nosso sistema neurológico. E como nossa percepção presa à linguagem e ao domínio do ego pode estar nos afastando de uma compreensão mais completa do mundo, da vida e de nós mesmos. 

 

 

A CONVERSA

 

"Mesmo que o progresso da neurociência permita que pessoas como eu não morram, o que é incrível, ainda somos muito limitados na forma como entendemos a complexidade e a subjetividade do funcionamento do cérebro no nível pessoal e da experiência."

Em quase uma hora de conversa, falamos sobre seu filme e seu AVC. Sobre os desafios de viver com dificuldades na linguagem e das vantagens de tê-las.

Sobre internet e o impacto da hiperconectividade do cérebro e mente.
As vantagens da meditação, sobre pânico e remédios. Sobre ciborgues e desigualdade econômica que pode ganhar terreno na própria cognição.

 

 

 


Mas falamos principalmente sobre como a experiência de Lotje a fez questionar o paradigma médico e científico vigente. Sobre como a linguagem hermética, a separação do mundo em conceitos e palavras fechadas acaba produzindo um modelo de realidade ao mesmo tempo sofisticado e limitado. Sobre como o funcionamento e a estrutura do cérebro são fruto e produtores de uma mentalidade. De como a realidade filtrada pelo ego está produzindo uma sociedade cada vez mais triste e perigosa.


E, vítima de um grave AVC, tendo sua salva pela neurociência contemporânea, Lotje acha um risco que sejamos capazes de superar o modelo materialista de compreensão da realidade. E, ainda mais arriscado, que projetemos na neurociência a chave para a compreensão da consciência, identidade e natureza humanas.

 

 

 

O PASSEIO

Nosso passeio foi pela Vila Itororó, uma construção histórica e ao mesmo tempo muito viva da cidade de São Paulo.
Inaugurada como um palacete, passou por incontáveis reformas, refeita como espécie de cortiço, o longo das décadas foi casa para muitos famílias e termômetro de muitas fases do desenvolvimento urbano da cidade.

Hoje sob tutela da prefeitura, coletivos culturais e moradores do bairro, a Vila segue sua vocação de viver em permanente construção e ressignificação. Para nossa conversa, tornou-se a metáfora sólida de como memória, realidade e percepção podem ser pensadas e vividas como um fenômeno só.  

Aqui você sabe bem mais sobre a Vila e o que acontece por lá. 
http://vilaitororo.org.br/

 



CÓRTEX é uma produção do ESTÚDIO FLUXO

Direção: Susana Jeha
Câmeras: Susana Jeha e Thiago Neves
Edição: Bruno Torturra e Thiago Neves