CÓRTEX - MUNDANÇA CLIMÁTICA E O FIM DO MUNDO MATERIALISTA

ENQUANTO OS EUA SE RETIRAM DO TRATADO CLIMÁTICO DE PARIS, UM DOS MAIORES CIENTISTAS DA ATMOSFERA NO BRASIL NOS AVISA QUE O ACORDO DA FRANÇA ESTÁ, COM OU SEM TRUMP, LONGE DE NOS SALVAR DE UMA TRAGÉDIA AMBIENTAL. MAS EM VEZ DE EXPLICAR O AQUECIMENTO GLOBAL COM ÍNDICES E TONELADAS DE CO2, ANTÔNIO DONATO NOBRE APONTA PARA A REAL AMEAÇA AO PLANETA E À NOSSA ESPÉCIE: A PSIQUE HUMANA, O MODELO CIENTÍFICO VIGENTE E A HIPERTROFIA DO NOSSO... CÓRTEX!

"A competição é a exceção. A cooperação é a regra na natureza. Estamos explodindo o planeta, expodindo a nós mesmos por conta de uma leitura equivocada dos processos naturais"

 

O CONVIDADO

Não deve ser fácil ser o Antônio Nobre. Seu rotina de trabalho é depurar os mais frescos e bem aferidos dados climáticos no Brasil e no mundo. É processar em sua sala no INPE, as más notícias. Ou pior: as más notícias climáticas instaladas para os próximos anos.

O trabalho de Antônio nas últimas décadas foi um alerta para governos, universidades, cidadãos e jornalistas sobre o desastre ambiental em construção. Alertar para o fato científico de que nosso presente oferece de tudo. Menos um futuro. Muita pouca gente ouviu.

Precisou de um Donald Trump na presidente dos EUA, um desastre diplomático no acordo do clima e claros sintomas de febre planetária para que a mudança climática tomasse, como nunca antes, a cobertura da imprensa e o sono de bilhões de humanos. 

O problema é que agora que o mundo se convenceu da importância do tratado de Paris, Antônio se vê, mais uma vez, na proa da nau dos sensatos. "O acordo de Paris é melhor do que nada? É. Mas ele foi construído em cima de modelos e expectativas que já se provaram erradas. Estamos já vivendo um cenário muito, muito mais grave do que o previsto nos modelos antigos. O esforço que precisamos fazer para sair dessa é de outra escala", nos disse em nosso passeio juntos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Antônio é agrônomo, ecologista, cientista da Terra e profundo conhecedor da realidade ambiental da Amazônia. Hoje, Antonio é um dos mais inovadores pesquisadores ambientais do Brasil e do mundo em atividade. Seus estudos sobre Amazônia e a influência da floresta nas dinâmicas atmosféricas podem rever antigos modelos globais sobre a formação de chuvas. E dar uma dimensão ainda mais profunda à importância do reflorestamento como forma de impedir o completo colapso climático.

Nesse episódio de Córtex conversamos com o professor Antônio Donato Nobre em um passeio pelo INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. O maior centro de pesquisas climáticas e atmosféricas da América Latina. Antônio é um dos mais inovadores pesquisadores ambientais do Brasil. Seus estudos sobre Amazônia e a influência da floresta nas dinâmicas atmosféricas podem rever antigos modelos globais sobre a formação de chuvas. E dar uma dimensão ainda mais profunda à importância do reflorestamento como forma de impedir o colapso climático.

A CONVERSA

Apesar de ser um grande pesquisador e coletor de dados, a conversa não gira em torno apenas das causas físicas, mensuráveis ou planejáveis em torno do tema. Não é tanto sobre carbono e ações políticas, mas sobre causas mais sutis e, talvez, mais fundamentais ainda do que nosso modelo energético. Em mais de uma hora de passeio, Antonio discutiu sobretudo o modelo mental e o paradigma científico que criou nossa insustentável realidade. Não à toa, Antonio tem como um de seus alvos favoritos a própria ciência e sua forma "autista" de pensar sobre os processos que sustentam a vida na Terra. 

Um passeio que também é um longo pensamento sobre como a mudança climática, antes de tudo, fruto de nossa dificuldade em mudar. Ou melhor, em nos reconhecermos como espécie em um planeta que abriga vida há bilhões de anos.

Das razões emocionais que, por conta de nossa evolução, nos fazem iludidos pelo conforto.
Do funcionamento do cérebro à má interpretação do Darwinismo.
Os neodarwinistas e como atrasaram a biologia.
A vida como fator regulador do clima.
osso terror diante da complexidade. Os limites do pensamento analítico à miopia humana em reconhecer a inteligência natural.
O clima na Amazônia e a bomba biótica de umidade.
Sobre a necessidade imperativa de uma ciência sistêmica e filosoficamente subordinada aos processos naturais que, segundo Antonio, são muito mais baseados em cooperação do que competição.

E, no final, o professor dá uma longa e bem formulada bronca na gente:

"Esse programa não deveria chamar Córtex. O Córtex é justamente o que nos abstrai, que nos desconecta do corpo, do mundo exterior."

O PERCURSO

Nosso passeio foi pelo INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em São José dos Campos. Saindo do Centro de CIência do Sistema da Terra, prédio onde trabalha Antônio Nobre, seguimos para o LIT, Laboratório de Integração e Testes, o maior do gênero na América Latina e terminamos em um parquinho do centro, entre pernilongos e parabólicas. 
Um lugar fundamental para a ciência brasileira e um dos cenários mais adequados para discutirmos o quão eficaz e linda pode ser a ciência. E quanto sua dificuldade em se libertar da mera análise produz uma enorme cegueira.

CÓRTEX é uma produção do ESTÚDIO FLUXO

Direção: Susana Jeha
Câmeras: Susana Jeha e Thiago Neves
Edição: Bruno Torturra e Thiago Neves